sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Corando

Aninha e suas pedras
Cora Coralina
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Incendiando a contabilidade de 2012

Final de ano tem cheiro de fumaça de rescaldo. É resfriar aquilo que chamuscou. Contalibilizar o que se consumiu. Abraçar o que se salvou. Abandonar a limpeza das fuligens das paredes. Acomodar todos os pertences num sorriso, e finalmente seguir para morada de um novo ano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Calendário em descompasso

De que adianta a sexta-feira, se aqui tem sido uma eterna segunda-feira? E nos sábados , é no máximo quarta-feira. E os domingos se emendam, depois que cai a noite, entre compridas segundonas.

Mas a sexta-feira ainda há de chegar, e até a quinta-feira vai ter sua beleza, assim como a quarta-feira sua graça e a terça vai ser até agradável. Mas a segunda, segue sendo a segunda, tem jeito não.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não me engana que eu gosto

Talvez eu morra hoje. Quem pensa nisso ao acordar? Tão óbvio, mas difícil de acreditar. Mais provável a certeza de cometer um homicídio quando é o cliente cobrando, funcionário aprontando, fechamento chegando e a geladeira pifada de novo.

Ai, se eu morro hoje ia ser uma merda. É uma idéia mais recorrente, nos finais do dia, ou quando a gente se pega enlouquecendo com uma fechada na rua, um trabalho mal feito, uma conversa indesejável.

Nem as aparências deveriam enganar. Essa vida é coleção especial de marca chique para loja de departamento. A gente acredita que está arrasando comprando aquela peça por precinho aceitável em 12 vezes no cartão sem juros. Mas desconjura logo depois da primeira lavada.

Nem a marca chique, nem as lojas Marisa deveriam ter tanto poder de me fazer feliz. Nem o playboy que me fecha, nem o cliente que me xinga poderiam me fazer tão infeliz. Por que não vou levar nada disso, quando eu bater as botas. Óbvio, mas quem pensa nisso ao surtar?

Todo ser humano quer ser feliz e parar de sofrer. Toda vez que escuto a máxima budista, complemento mentalmente com minha mente intoxicada: ser feliz, parar de sofrer e perder 5 quilos. E embora todas as minhas ações sejam orientadas para isso, vira e mexe me entupo de chocolate, raiva, apego e egoísmo.

A gente se engana que ainda vai ter todo o tempo do mundo para ser feliz, a precinhos módicos, sem muito esforço. Mas essa ilusão não encara uma ensaboada de sabedoria sem desfazer.

Talvez eu morra hoje. E pelo menos talvez possa ter feito algum bem a alguém lembrando que também esse pode ser seu último minuto. Talvez eu tenha feito alguém feliz por um minuto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Telefonia menstrual

Celular de mulher deveria ter detector de hormônios. No auge da TPM, bloquearia todos os contato exceto os números da polícia, bombeiro e da casa da mãe.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Bem-te-vivi

Canto acima das antenas de televisão. Mas meu ninho construo bem longe dos olhos. Escondo o abrigo mas arregalo as sombrancelhas e espalho bem alto. Bem-te-vi mundo doce pitanga. Felicidade é isso, apesar dos pesares.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cascuda

Se casca tem muito mais nutriente do que a polpa, poupem minhas cascas, por que a polpa está só o bagaço.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amor com catapora

E eu que me julgava imune, quando foi que eu mudei? Lembro de um colega de trabalho que chorou muito por um amor perdido. Virávamos noites numa ilha de edição. Muitas delas assisti incrédula suas lágrimas molharem o teclado, enquanto trabalhava. Achava ridículo, fraco.
 
Todo mundo deveria sofrer por amor bem jovem, como uma vacina. Se não imunizasse seria uma amostra grátis, como resfriado leve, para enfrentar uma possível gripe forte ou para saber cuidar de quem padece. 

Por que coração partido é um vírus. Tem quem nunca se contamine. Tem quem se torne mais forte ou, ao contrário, sem imunidade nenhuma. Coração partido deveria ser como catapora. Todo mundo já teve um dia. Coça por um tempo e deixa marquinhas até que simpáticas às vezes.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pelos comboios de nossa infância

Nosso exército em exercício aquático

Distâncias alongavam nossa valentia, que se estendia além do percurso. O desafio era andar pelo trilho do trem. Mesmo que trem nunca tenha passado e testado nossa coragem bafando nos nossos cangotes.
Mas tinham os preparativos. Doces e salgadinhos indecentes socados numa sacola. Duas botas para vinho espanholas que meu pai emprestava para carregar bebida à tiracolo. Coca-Cola quente e sem gás.
Saíamos anunciando a aventura aos adultos da casa. Fila de moleque farejando descobertas. Era borbulhar de vida brotando da terra vermelha em cupinzeiros destruídos pelas estradas. Aquarela de borboletas tingindo cada curva. Pedras perfeitamente roliças a pesar como tesouros nos bolsos.
E iniciava sinfonia. Tum, tum, crec, crec, chuf, tum. Cada passada burilava uma nota musical em trilhos abandonados, ora cobertos de pedra, ora por mato ou barro.  Perna curta do irmão mais novo descompassando de leve a batucada. Um metrônomo convidando o pensamento voar além dos horizontes.

Os horizontes para nós eram os mais incríveis, embora fossem singelos campos carecas e plantações de cana. Mas haviam as mamonas que nos ofereciam espinhos gostosos de acertar em perna desavisada. Carecas de padre pedindo para serem sopradas. Teias de aranha brilhantes ao sol. Calangos sorrateiros farfalhando encostas e despertando sustinhos gostosos na gente.
 
A bolsa passava de boca em boca distribuindo a bebida, que escorria pelas bochechas coradas, pintando camisetas imundas. Andávamos, suávamos, cansávamos, comíamos e voltávamos.  O passeio podia durar alguns minutos ou longas horas.

Novidade somente era nova cerca, plantação ou toca de bicho. Emoção forte mesmo foi um mergulho em lagoa que resultou em cortes no pé de um dos soldados. Foi quando o batalhão compenetrou-se em logística de resgate baseada em chamar um pai solícito. Ou riscos altíssimos presenciamos quando meu irmão mais velho caiu da pinguela de cabeça numa fossa. Riscos sanados com banho ainda mais reforçado de Lysoform.
Os brinquedos seguiam-se em cavernas cavadas nos montes de terra vermelha. Piscina plástica com mais mijada do que água. Rondas alucinadas pelas campas do cemitério vizinho. Réplicas de carrinhos de rolimã com rodas de carretéis de linha gigantes descartados pela fábrica do bairro.

Infância era diversão. Era ser valente sem precisar de motivo. Era acumular tesouros sem ter que comprá-los. Simplesmente por que éramos crianças éramos felizes. Uma jornada boa de percorrer de volta para encontar nosso maior aprendizado. A alegria genuína de apenas andar pelo trilho, sem nunca se cobrar um destino, mas sempre cultivando a certeza de gozar cada momento do caminho.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Da escrita de escafandrista


Escreve quem precisa desvencilhar-se de si. É esgotar perguntas sem respostas pelo cansaço de organizar palavras.
É estiolar pensamentos compulsivos. Sufocar ilusões em palavras daninhas. É podar a planta para que o caule torne-se tenro e as folhas vigorosas. Jardinar a mente e florescer a alma.
É arqueologia da vida, escavando a poesia soterrada por eras dia a dia. Porque, as vezes, é preciso se desenterrar para não virar um dinossauro..
Começa como sobrevivência. Sem teorias, a cura é poesia. É a válvula que precede o escape. A salvo o autor, a escrita está livre para a literatura.
É fazer despacho de palavras, na encruzilhada de parágrafos. É distribuir oferendas de frases. Traz de volta a pessoa amada. Nesse caso, o próprio autor.
Escrever é transbordar a alma. Transbordo com a violência de cheias de fim da tempestade. Não cabe em comportas de fingimento.

Sobram os leitos da prosa débil. O seu percurso irriga campos e busca desaguar em mares de calmaria. O percurso é cumprido por navegantes que se arriscam em águas turvas.

Escrevo para que eu escute a música que toca aqui dentro. E para que talvez lá fora, alguém também escute. E quem sabe até cante comigo, me ajudando a desvendar trechos da letra que não entendo...

Escrevo como quem luta para preservar a fonte cristalina ameaçada pelo desejo de esgotar o ser.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Gropoun sentimental

- Alô.
- Sim, é ele mesmo.
- Sim, é daqui a reserva, preciso com urgência.
- Como assim não têm em estoque, faz mais de um mês que encomendei!
- Ah, é óbvio que aumenta a demanda no final de ano...
- Eu já sei, meu querido, tem o cansaço, um monte de merdas não resolvidas que vão ficar para o ano que vem, e os malditos Natal e Ano Novo.
- Sei que esgotou rápido demais, procura alta. Mas a minha paciência já esgotou faz tempo. Não tenho mais, entende? Estava contando com vocês.
- Como assim, só em janeiro? Você acha que vou aguentar até lá com esse estômago fodido?
- Amigão, se vira, mas eu tô me virando do avesso com esse aqui. Não tem um dia que eu não lamente os sapos que eu engoli para ficar nesse estado.
- Isso que dá acreditar nessas ofertas de Groupon.
- Bom, queridão, eu tô à beira de um ataque de nervos. Preciso da sua ajuda. Pelo amor de Deus, eu estou pedindo.
- Ah, o que? Não, não, não me coloca na espera. Ah, meu pai - grita.
- #grunhidos# Meu coração, ugh.
- Tuuuuuuuu....

Ele nunca retirou a reserva. O atendente até tentou entrar em contato em fevereiro, mas o número de celular já não existia. Por isso que paciência ainda não se vende e nem se empresta, senão ia ser esse inferno.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

E eu lembrei da minha Caloi

Com uns sete anos tirar rodinhas da bicicleta Ceci foi um drama. Meu tio ganhou dois meses de academia grátis. Em corridas incansáveis ao meu lado, ele me amparava para seguir sem aquele apoio para criancinhas, durante as férias de verão. 
 
Muitos joelhos ralados depois, confesso que ainda ando muito mal de bicicleta, mas sem rodinhas. E vou amar meu tio por toda vida por tanta paciência dedicada.
 
Agora quero deixar as minhas rodinhas de mulher escaldada. Estou cansada de terapias, conjecturas, temores e mil planos do Cebolinha para não me ralar mais. Embora cercada de gente muito querida, incluindo um homem muito amado, essas rodinhas tenho que largar sozinha.
 
Eu me sinto feliz nesses dias de novas tentativas, mas completamente apavorada. Um ventinho no rosto, a felicidade da liberdade cambaleante e ainda escuto a voz do meu tio correndo ao meu lado: "agora vai sozinha, Ju".
 
Buda e todos os seres iluminado me amparem nos ralados, que eles sirvam para me fazer alguém melhor. Ou quem sabe eu nem me rale mais.

Quem sabe?

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Coveira às avessas

O lance é me desenterrar viva dessa vida. O coração já está quase pulsando limpo. Mas sigo sempre cavando. E cuspindo ainda muitos torrões de terra, acertando em quem não devia, em quem eu não queria.

Espero que perdoem essa coveira desajeitada.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Curso de mergulho rápido

Pese a mão no Rivotril e desfrute um dia dentro do aquário, na calma e lentidão do fundo das águas. Acabei de ver um cavalo marinho flutuando em cima do armário.

Isso é o que deve ser literalmente mergulhar nas profundezas do seu eu. Mais um quartinho de Lexotan e é apnéia.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Relatividade

Relativa é a companhia, mesmo no maior tempo ou no menor espaço. O meu eu tem dimensões que nenhuma teoria alcança.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Oi, oi, oi, só pode ser Halloween

Bando de zumbis descerebrados comemoram resultados de eleições.

Independente de qual fosse o resultado, comemorar o que? Si hay gobierno, soy contra.


E a crise pessoal continua, ainda mais com essa saudades da Carminha.

Peggy Sue, c´est moi

Peggy Sue, seu passado a espera, como eu gosto desse filme. Não por que eu tenha pretensões de poder escolher mudar o meu passado. Mas quero conseguir mudar o meu presente, mesmo que o passado viva à espreita.
 
Dizem que na crise a gente cresce. Só sinto que na crise a mar de merda é que cresce para nos engolir. Segura, Berenice, que só o tempo cura. E talvez reviver acelere o processo. Reviver sensações de medo, raiva, dúvida, solidão. Enxergar em você, no outro, tudo aquilo que se teme. É uma teoria persecutória delirante, mas completamente intoxicante.
 
Reviver situaçãoes de crise tem a vantagem de ser facilitado pelas ferramentas que você já se lascou para desenvolver um dia. Você exibe com orgulho aquela machadinha tosca de lucidez que você esculpiu num passado não muito distante. Mas há que se encarar certos vícios de julgamento e um cinismo mórbido diante da vida difíceis de combater.
 
A maior vantagem é que você grita menos, debate-se menos. Você já sabe que ganhar ou perder envolvem milhares de variáveis. O seu controle mediante à vida é comparável ao de uma criança de 5 anos assumindo o volante de uma Ferrari.
 
E  vou pirando entre escolher usar as armas patéticas que um dia já me defenderam, ou identificar se o inimigo não sou eu mesma. Ou se existe de fato um inimigo. É um misto de exército de Brancaleone com Alien, o monstro está dentro de você, sua louca.
 
Se eu fosse a Peggy Sue, apenas quebraria a cara de todos os filhos da mãe que descobri no futuro. Por vezes a violência me parece tão redentora que faz corar todos os meus atributos éticos desenvolvidos nas chatíssimas discussões intermináveis, que me faziam delirar, nos meu anos de bicho-grilo-aluna-da-PUC. É a vida.

domingo, 28 de outubro de 2012

Brasil mostra sua babaquice

#paunocu de tudo quanto é político. Estamos assistindo extermínio sistemático da população e policiais no Estado de SP. Nenhum secretário ou governador se manifesta de modo enfático. O governo federal não tem nenhuma política de combate ao tráfico de armas e drogas.

Ficam com esse blá-blá-blá de PT x PSDB. É tudo farinha do mesmo trigo, só muda o selo na embalagem. Mensalão petista, mensalão tucano. Vamos ver alguém devolver a nossa grana? Alguém acredita em gente de camisa engomada vendo o sol nascer quadrado, nem que seja por algumas semanas?

Celebro o fim de mais um dia da festa da democracia, as eleições, com um corpo do outro lado da rua da minha casa. Foi morto com uns quatro tiros. Achei que era o escapamento de uma moto. Mas está lá, já faz quase uma hora, sendo lavado pela chuva, debaixo de um lençol branco.

E tem gente comemorando resultado de eleições! Deviam sim é estar putos, fazendo lista de reivindicações para cobrar os nossos digníssimos governantes.

Dá-lhe Brasil!

Só os absurdos fazem poesia




A gente gostava das palavras quando elas perturbaravam o sentido normal das ideias.
Por que a gente também sabia que só os absurdos enriquecem a poesia.
Manoel de Barros

De Manoel

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Manoel de Barros

Com pedaços de mim apenas tento ser.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tocando em letras

"Ao sair do avião,
Zoom de besouro, um imã,
Jantei às três da manhã"


Escrevo para que eu escute a música que toca aqui dentro. E para que talvez lá fora, alguém também escute. E quem sabe até cante comigo, me ajudando a desvendar trechos da letra que não entendo...
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Só por hoje e amanhã também, respira

Uma caixa de grito, um saco de areia e luvas de boxe, vou adotar como EPIs de trabalho.  

Respira ao menos, que é só o treino para iluminação!

Achei ótimas as dicas de http://papodehomem.com.br/para-comecar-a-meditar/ , já que pega mal fazer despacho debaixo da mesa de algumas pessoas ou pedir colo e uma mantinha.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Temperança

À vida da gente não se dá gosto logo que nasce. Ela pode até ser servida num prato bonito. Mas descobre-se a vida aos bocados. Garfadas amargas, entre colheradas doces.  

E a vida, a gente tempera, enquanto engole mesmo. É bom meditar sobre a receita ou, ao menos, que efeito se espera ao final da refeição. E manter a mente aberta para os ingredientes que surgem ao longo do preparo, por que embora tenhamos escolhido cada um deles em algum momento, somos cozinheiros esquecidos de nossa lista de compras.

Viver, meditar, cozinhar, tem que praticar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Em crisálida me sonhei

Borboleta de rosa cor lembrança, no lençol que me cobriu menina. Eu me senti tão trapo velho, quando o encontrei no quarto antigo. Admirei as asas de sonhos ingênuos. E impresso no pano senti o cheiro morno de casa de mãe.

E eu que tento parecer tão fodona, mulherzinha,  meio loura, meio descolada, fiquei desbotada de saudades daquela criança.  Tão bobinha acreditava que hoje já seria uma borboleta. Mas ainda é lagarta ávida por novos dias, novos sonhos, novas paisagens que me acalmem dos meus medos, das minhas confusões.

Um dia ainda ressucito de vez. Mas se puder escolher, hoje prefiro renascer vaga-lume. Borboletas são só para meninas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Jardinando você

Já fui invadida por um deserto. E você trouxe terra boa e fértil para eu reflorestar. Procurava diamantes em vão. Hoje, semeio, rego e cresço.

Montes de areia seca esparramam-se ainda em cantos. Mas abri um caminho para o melhor lugar do mundo. 

É no seu peito que eu vejo gérberas amarelas. São flores simples, mas me parecem idiotamente felizes, como nos prometemos ser. E somos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A culpa dela

Toda segunda-feira, sou uma história que tento contar para mim. Conto as tarefas que vou repetir, as angústias a revisitar, os planos redesenhados e já abandonados e as saudades que imediatamente começo a sentir de dias que posso ser. Sinto pena das minhas penas e elaboro saídas que nunca chegam ser claramente mapeadas.

Começo a semana extenuada do trabalho inútil. Mas não encontro solução a não ser me encantar ou enganar por mais alguns dias, Sherazade de longos dias.

As pessoas devem procriar, drogar-se, escrever romances, fazer plásticas ou se alistar no médicos sem fronteiras apenas para evitar esse torturante quarto de hora semanal. Para evitar listas mentais de prós e contras, sem justificativa, apenas seguir. Sem chance de voltar atrás.

Deve ser por isso, por causa da segunda-feira.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Zécutiva: mínimas gerenciais

1- Princípio da larica, fazer o que dá com o que tem.
2- O fundo do poço tem porão. Nunca diga que pior não fica.
3 - Não é gambiarra, é RTA - recurso técnico alternativo.
4- A humanidade é inviável, mas ainda não conseguimos contratar apenas poodles coloridos.

Vamos complementando nosso pessimismo ao longo da construção de novas mínimas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vigilante do jeito

Quero aprender cozinhar palavras doces. Deixá-las de molho para que amoleçam. Retirar qualquer espinho que machuque ouvidos delicados. Aquecê-las devagar com breves pausas e sem pressão. E cobrí-las de caramelo ao ponto da delicadeza. E ainda me farto de doçura, assim como tem me enjoado a acidez das frases que preparo hoje. Nesse dia, acho um ponto para acertar o sal e o doce e nunca mais fujo da dieta.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vagareza

Sou de vagar. Vagar sonhos e expectativas para o novo ocupar. Ainda aprendo que sonhos não deveriam ocupar espaços. Porque o único desejo válido é justamente acordar do sonho.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Das calcinhas que eu bagunço

Ser feliz é questão de coragem e disciplina. E eu tenho medo por não conseguir nem manter a ordem da minha gaveta de calcinhas. De tempos e tempos, saio arrumando tudo, com a certeza de que vou bagunçar novamente.

Fiz lista de tarefas para organizar as gavetas dos dias que se desorganizam. Tempo para contemplar os dias e espaço para circular os sentimentos. São novos dias de armários enxutos, renunciando às montanhas de quinquilharias inúteis a soterrar a vida. Guardando com apreço só aquilo que me faz feliz.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Coração botando ovo

"Minha saudade é tanta que meu coração parece uma galinha. Ele vai sair correndo pela sala e eu não vou conseguir alcançar".

Dele, que fez meu coração parecer um pintinho carente

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Zécutiva: roupa suja a gente fala mal em casa

Sinto frio na espinha toda vez que sou solicitada a dar referências de ex-funcionários para possíveis contratantes. À parte os casos de pessoas com comportamentos condenáveis gritantes - falta de ética, falta de compromisso, desrepeito - detesto esse poder de interferir na avaliação de outra pessoa. Alguém que não se adapta num contexto, pode muito bem ser a solução em outros lugares.

Assim como nos casamentos, a maioria dos contratos termina por que alguma coisa deixou de funcionar. Mas falar mal de ex a gente só faz entre amigos. A não ser aqueles casos que o ex é a encarnação do traste.

Redes de relacionamento profissional, sites de empregos dão espaços para que profissionais referenciem-se uns aos outros. É um banho de elogios. Nunca vi ninguém comentar: fulano atrasava todo dia, tinha problemas de relacionamento terríveis com a equipe, não respeitava prazos. É só babação de ovo.

São frequentes os casos em que me sinto ex-mulher com poder de decidir o destino de ex. É só um gaguejar de palavras muito bem medidas, quando o ex-funcionário não cometeu nenhum pecado capital, apenas não rolou por uma divergência de interesses. Além disso, se uma pessoa que trabalhou há 5 anos atrás comigo pode ter melhorado, piorado e até mudado de sexo. Quem sou eu para condenar ou promover um ser por um intervalo de tempo que convivi com ele no passado?

Não significa que seja uma santa com a equipe. Em geral, tenho que me controlar para não criticar exageramente, não ser dura. Mas é sempre aquela história, roupa suja se lava em casa. Se for lavar em outro tanque, fica de olho por que não serei eu a apontar as manchas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Confeitaria sentimental

"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." 
Guimarães Rosa

Sou massa de saudades. Elas fermentam e transbordam disformes. Queimam nas bordas mas mantêm-se cruas por dentro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Arriando as calças da consciência

Embora exiba renovadas idéias e comportamentos, como roupas novas e descoladas, ainda me frustro quando me deparo com as calcinhas furadas dos meus mais antigos desejos. São peças vexatórias e puídas. Mas são confortáveis. Ou recebidas de alguém em algum momento e guardadas no fundo da gaveta. Como aquele presente de tia, que você nunca vai usar, mas não doa achando que um dia vai encarar.

Toda vez que arrio as calças da minha consciência, eu me envergonho. Ela é brega e completamente fora de moda. Insiste em uns modelões de arrepiar qualquer bom senso.

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Feliz por um triz

É isso, mas depois a gente comenta. Bibelô em música da minha xará linda Juju Fina Flor, phiníssima por sinal:

Feliz por um triz

Sou feliz por um triz
Por um triz sou feliz

Mal escapo à fome
Mal escapo aos tiros
Mal escapo aos homens
Mal escapo ao vírus
Passam raspando
Tirando até meu verniz

O fato é que eu me viro mais que picolé
Em boca de banguelo
Por pouco, mas eu sempre tiro o dedo - é
Na hora da porrada do martelo
E sempre fica tudo azul, mesmo depois
Do medo me deixar verde-amarelo
Liga-se a luz do abajur lilás
Mesmo que por um fio de cabelo

Sou feliz por um triz
Por um triz sou feliz

Eu já me acostumei com a chaminé bem quente
Do Expresso do Ocidente
Seguro que eu me safo até muito bem
Andando pendurado nesse trem
As luzes da cidade-mocidade vão
Guiando por aí meu coração
Chama-se o Aladim da lâmpada neon

E de repente fica tudo bom

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Saudades em calda

Vó, carinho de tarde fria.
Um grito antigo de vogal comprida.
Ao pé do fogão, ninguém mais cozinha.
Saudades é maçã cozida.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Barbeiragens na vida sem manobrista

Tentei ser boa filha, boa aluna, boa amiga, boa namorada.  Consegui apenas ser boazinha, só esqueci de ser boa para mim. Temi a solidão. Sempre valorizei opinião ou apoio. E reforcei frustrações toda vez que não atendi aos conselhos recebidos.

Mudar velhos hábitos é mais difícil que estacionar em shopping na véspera de Natal. É preciso otimismo, paciência e persistência. Não tem sensor de ré e muito menos manobrista. É uma busca solitária e cheia de buzinadas. E quem está do seu lado, geralmente, vai insistir em relembrar as barbeiragens que já fez pelo caminho.

Estou refazendo as rotas com muita dificuldade. Sozinha. Evitando parar para perguntar e me desorientar. Mas me perdendo muito e cada vez mais, embora mantenha a sensação que não saí do lugar. Tomando muita buzinada. Manobrando muitos medos, e me ralando toda.

Ainda não vislumbro destinos. Tento confiar em que ainda aprenderei a ser boa. Boa em apontar o que é melhor para mim. Boa em me manter feliz e me perder menos. Boa em valorizar quem eu sou e o que penso.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Nada mais que a verdade

Aspirar o mundo e cair no choro. E mesmo insistindo, há quem não se acostume com o cheiro da vida. Nada mais justo que uma forte alergia para justificar olhos vermelhos.