segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Síndrome de plano infinito

Eu costumava ser centrada, o problema é que ultimamente é tanta coisa que está difícil localizar a borda.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Chapada em delicadezas

Quando o itinerário da alma tem destino imprevisível e muito além do corpo, uma viagem cumpre seu papel. E quem de fato se propõe a conhecer a Chapada dos Veadeiros (GO) surpreende-se o quão distante pode chegar. E assim, eu fui, sem saber que iria tão longe.

Olho de gente da cidade é anêmico por conta da dieta pobre de horizontes. Quando exposta a um banquete, demora um tantinho para digerir cor e amplidão fartas. E o céu de Goiás vai como que nutrindo olhares em grandes goles de um azul incomparável ao longo da estrada judiada que liga Brasília à Alto Paraíso.




 E depois que o olho fica sedento por mais goles, a gente se embrenha no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Dos grupos que se formam na entrada, nosso grupo tinha Andrew, um médico americano interessado em tratamentos medicinais alternativos e em conhecer  João de Deus, um médim curador que atrai multidões de todo o mundo para Abadiânia (GO), cidade que o gringo pronunciava como algo parecido como vagina, provocando gargalhadas.

O guia de nosso grupo foi Rafael de São Jorge, nome do pequeno município onde fica a entrada do parque. Rafael estudou quatro anos de biologia, desistiu da graduação e se especializou por conta própria em guiagens científicas. Ele é um dos apenas três guias que fala inglês fluente no parque. Aceitou guiar nosso grupo se aceitássemos que ele mostrasse a Andrew todas as plantas de uso medicinal pelo caminho em inglês. Ninguém pensou duas vezes, parecia mais um presente. E Rafael foi nos apresentando as plantas como quem introduz velhos conhecidos, nome popular e científico e seus diversos usos. 




Um dia de enormes horas de caminhada em meio ao cerrado, e o corpo expandindo limites do cansaço. A compensação foi meditar à beira de enormes canyons e nadar nas cachoeiras da Louquinhas, assistindo um louquinho sob efeito de beberagem de Santo Daime se batizar comicamente nas águas, para desespero dos salva-vidas do parque. Final do dia regado à muita cerveja no pequeno Bar do Pelé e depois muita comida "home-made" na Dona Nezinha. Nosso médico americano enlouqueu os locais habitués alcolizados do pequeno estabelecimento com sua língua enrolada. O que esse "homi" está falando enrolado, eu não dou conta, porra - repetia o mais conversador deles. Em compensação, o simpático garçom da Nezinha arrancou aplausos arranhando o inglês aprendido nas ruas.




E conversa boa, junto com comida melhor ainda é o que não falta entre esses goianos. Segundo Daniel, doce e falador garçom da nossa pousada, na palhoça do seu Waldomiro, come-se a melhor matula da região.  Comida de boaideiro, ex-ocupação do dono do lugar, que recebe a todos com abraços na porta do carro e só não senta de vez nas mesas para a prosa porque tem muita gente para conversar. Cozinhar ele aprendeu com a mãe, hoje divide o negócio com os seis filhos e agregados que chegam a dezenas. Faz pinga e licor de sabor doce e amargo também, esse para temperar a vida, já que a dele, segundo o próprio, já é muito doce. A minha pinga foi com arnica. O doce de leite vem no pote com as colheres junto para mandar ao diabo qualquer dieta. E o doce de casca de laranja trouxe o carinho da lembrança dos doces da minha tia-bisavó Dula.
  




Andei pelo Vale da Lua, uma impressionante superfície de rochas entrecortadas por um rio. À noite, nadei em piscinas termais rodeadas de sapinhos que coachavam loucamente, tentando expulsar turistas indesejáveis de seu ofurô natural. Alimentei dezenas de pernilongos famintos. Deixei pedaços de pele nas ranhuras das pedras em alguns tombos. Trouxe uma dezena de roxos, dores musculares e uma alma expandida que quase não se cabe em mim.

No parque, ao longo da trilha, a vegetação mostrava sinais de carbonização, principalmente nos troncos de árvores que insistiam em desenvolver folhas verdinhas. O guia Rafael explicou que incêndios por causas naturais, como raios, são comuns no cerrado. O fogo é rápido como uma lufada de vento. Transforma matéria orgânica em mineral, facilitando a fertilização do solo rochoso do lugar.

O cerrado é pouco resistente ao fogo, mas extremamente resiliente, pontuou Rafael. Em comparação com outros habitats, embora incendeie facilmente também tem enorme capacidade de recuperação, fazendo do fogo um instrumento para fertilidade. E eu com meus botões, fiquei pensando na minha alma, tão incendiada e recuperada como o cerrado. E gostei ainda mais daquele lugar que já me mata de saudades.






  As fotos sensacionais são do meu companheiro de viagem, meu irmãozinho caçula, no momento, mais velho que eu três anos, e muito paciente com meu atrapalhamento em terrenos acidentados.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Poeminha feliz

Felicidade,
Se eu toco, é miragem.
Se eu sinto, é realidade.

video

Budinhas simpáticos com desejos de felicidade para todos!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Zécutiva: Felicidade clandestina sob mesas de reunião

Se há um terreno em que, a cada gargalhada, você é medido como um marginal portador de cigarrinhos do capeta é no ambiente corporativo. A felicidade é clandestina e perseguida, como pontificou minha traficante preferida, a Monga Executiva.

"É preciso muita firmeza de propósitos pra convencer os decisores das intituições de que nós, usuários e defensores desta morfina organizacional chamada FELICIDADE podemos exercer dignamente as funções para as quais somos pagos fazendo uso dela".

Adorei ter uma companheira na campanha de legalização da felicidade (e ela me lê, que emoção). Sorriso e humor leve deveriam constar nos requisitos de descrição de funções, com atenuantes para os dias de TPM, óbvio. Nesses dias, até aceito um "bom dia porque".

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Afogando tartarugas

Eu e meu irmão tínhamos duas tartarugas.  Entediadas pela vida aquática, elas insistiam em pular do aquário. E caminhavam camufladas pelo tapete verde da sala ou pelas lajotas verdes do quintal. Em cada fuga, uma gritaria. Criança da cidade não bota mão em coisa viva. E minha avó saia à captura dos bichos. Xingando em portunhol enrolado, despejava as pobres de volta ao cativeiro envidraçado.

Foram muitas tentativas de exploração terrestre, até que minha avó, exasperada pelas caçadas imprevistas, resolveu definitivamente o assunto. Jogou as tartarugas na privada e deu a descarga. Sem muitas explicações, porque espanhola resolve, não explica.

Ela imigrou ao Brasil, depois de uma longa estadia em campos de concentração na França para fugitivos da Guerra Civil Espanhola. Chegou com outros espanhóis que, por fim, voltaram à Espanha. Perdeu o marido cedo. Tornou-se uma mulher prática.Vivia só, resolvia as coisas a seu jeito, mesmo que tivesse que afogar tartarugas. Creio que nem feliz nem triste. Aceitava resignada o exílio que a vida, as guerras, a distância lhe proporcionaram.

Aos 87 anos, adoeceu gravemente e passou cerca de três meses encerrada num quarto cinza de hospital, ligada a um respirador. Nesse período, não aceitava televisão, rádio, livro ou qualquer distração que lhe amenizasse o calvário. Passava horas de olhos fechados, só o som mecânico do pulmão imposto a marcar tempo. Não sei o que pensava. Acredito que recuperava os fatos que ao longo da vida teve que esquecer para sobreviver.

Mais de uma vez, ela sugeriu que a desligassem daquela máquina irritante. Hoje, acredito que era a melhor alternativa, dadas as condições. Mas com 19 anos,  eu só conseguia me horrorizar e cantar. Das poucas canções que ela aceitava ouvir era "Maria Bonita", que segundo meu pai, foi a prefirida do meu avô. Uma linda letra que fala justamente de lembranças. Exaltava recordações de um homem apaixonado. Talvez meu avô cantasse para ela, que também era Maria.

Quando ela se foi, sobreviveu comigo a tristeza de ter acompanhado seus últimos dias. Mas minha avó era a sobrevivente, e me mostrou que tudo aquilo que chateia merece ser descartado, sem explicações. Isso é ser sobrevivente. 

Desde então, eu me tornei especialista em descartar fatos desagradáveis. E quando não suporto mais tantas tartarugas afogadas, ao meu redor, busco meu consolo. Lembro que até minha avó, uma espanhola, endurecida pela guerra e campos de concentração, sobreviveu, e conseguiu salvar até o fim sua Maria Bonita.

"Acuérdate de Acapulco,
de aquellas noches,
María bonita,
María del alma.
Acuérdate que en la playa
con tus manitas
las estrellitas
las enjuagabas
Tu cuerpo del mar juguete,
nave al garete,
venían las olas,
lo columpiaban,
y mientras yo te miraba,
te juro con sentimiento,
mi pensamiento te traicionaba".

Augustín Lara

sábado, 15 de janeiro de 2011

Inspiração de bunda de fora

Depois que se passa muito tempo sobrevivendo, viver não é mais natural. É desligar o respirador artificial. Sem marcapasso. Percurso em respiração livre. Inspira e expira. Sem a certeza da próxima lufada. Livre para perder o fôlego.

Encho os pulmões, até que doam de não se caber mais. Mas ainda de camisolinha de quarto de hospital. De bunda de fora. Mas muitas inspirações no último ano dão coragem para ir cada vez mais longe...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Um canteiro de obras na alma

Até Buda tirou férias. Já que os seres sencientes tiveram o ano todo para se iluminar e não tiveram sucesso, ele resolveu dar um tempo. O templo que frequento está fechado. E eu, dependente de darma, só piorando o meu carma.

Tropeço pela vida no escuro. E xingo. Procuro uma vela perdida no fundo de alguma gaveta da alma. O racionamento de luz está prejudicando o andamento das atividades por aqui.

Minha espiritualidade é um canteiro de obras, sem prazo de inauguração. Um plano ambicioso de metas de crescimento pessoal, atrasadas e mal executadas, que faria do PAC do governo federal um exemplo de eficiência.

E não adianta buscar ajuda externa. Vários pedidos de apoio foram ineficientes, frustrantes e geraram mais tristeza. Todo ser humano deve ser auto-suficiente em matéria prima para seu fortalecimento interior. O remédio está em alguma fonte escondida nesse eu em reforma. Tem que cavocar para localizar a nascente.

Mas espero voltar às atividades normais de reconstrução, com um pouco de descanso, e rotina, depois de um fim de ano frenético e cansativo. Se contar a vontade política, meu mandato ainda tem alguma chance de êxito.

E volta Budinha (desculpe pela brincadeira das férias)!!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Lituraturices: Questão

"Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der".

Carl Gustav Jung

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Endredons guardados, dores dobradas

Lidar com a dor é como dobrar um endredon, você vai dobrando, ajeitando, até virar um rolinho que caiba na gaveta. Depois que você aprende a dobrar uma vez tudo fica mais fácil. Um dia você esquece do endredon na gaveta, até que ele não serve mais para nada.

O meu endredon já cabe na gaveta, embora, por vezes, a porta do armário ainda abra.
 
Se eu sentir frio? Melhor pegar um cobertor quentinho. Um dia de sol, um novo amor, uma gargalhada em famíia, uma música doce. E assim vamos nos cobrindo, até o próximo verão.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Felicidade clandestina é... dietinha mental

A felicidade é um produto legalizado. É como álcool, cigarro. É bom, em doses adequadas. Causa medo porque vicia. Foi assim que meu irmão mais novo desbancou meu ideal de legalização de felicidade clandestina.

Já Buda é mais direto, felicidade é controle da mente. Essa mente que, como um adolescente obeso, adora se fartar de porcarias, prejudicando sua saúde. Uma dieta de bons pensamentos e ações é o que nos mantém saudáveis e felizes.

De um modo ou de outro, sigo meu mantra, só por hoje vou ser feliz. Mas confesso, que tem dia que não rola. Devoro tudo o que vejo pela frente com minha mente esfomeada e compulsiva. Depois ainda quero a iluminção, tão hipócrita quanto adoçante no café depois da feijoada.

Mente gorda!! Feio, muito feio.

Para ficar felizinha, da vizinha da Bolsinha...


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A cega

O tiquetitar parecia um relógio descompassado. Mas era a bengala de uma cega. Ela atravessava a rua levada pelo braço por um carteiro.  Um ponteiro vacilante, no escuro, tateava caminhos, pelas últimas horas do ano. Terminava o dia 31 de dezembro.

 Meu estômago gelou, enquanto as mãos suavam ao volante, aguardando o semáforo abrir. 

O carteiro a deixou no ponto de ônibus e se despediu. Como uma entrega, sem remetente ou destinatário. O homem seguiu e a cega manteve diálogo solitário. Como saberia qual ônibus tomar? Não se cansava de balbuciar frases. Onde iria aquela hora em total escuridão? E o maldito farol se demorava em mudar.

Quando o semáforo abriu, acelerei. Fugi. Sem coragem de encarar o retrovisor. Onde eu iria em minha total escuridão? Durante a queima de fogos naquela noite, experimentei fechar os olhos. Pois era assim que a cega me mostrou ser.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Zécutiva: Aprimoramento profissional é fundamental

Estava em dúvida em qual área de conhecimento me aprofundar esse ano. Depois de muito refletir, troquei o curso de gestão de pessoas pelo curso de palhaço numa academia de circo. Por que definitivamente não existe melhor habilidade do que levar a vida com humor, mesmo quando a equipe insiste em bombardeios de tortas de falta de comprometimento.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Uma família recém-renascida

O ano ainda não tinha nascido, mas já se prenunciava com uma primavera de nascimentos. Vó, vô, bisavó, tio, tia, pai e mãe brotaram com a notícia de que a família vai aumentar. E todos ganharam novos papéis, numa frenética atribuição de sonhos e responsabilidades. Eu, filha, irmã e titia. E o menino que brigava para não vestir uniforme do colégio, despejava o almoço indesejado pela janela e trucidava minhas bonecas virou pai.

Recém-renascidos, agora nós ensaiamos e esperamos como quem aguarda um novo dia de sol a iluminar todos os cantos das nossas almas.