sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não me engana que eu gosto

Talvez eu morra hoje. Quem pensa nisso ao acordar? Tão óbvio, mas difícil de acreditar. Mais provável a certeza de cometer um homicídio quando é o cliente cobrando, funcionário aprontando, fechamento chegando e a geladeira pifada de novo.

Ai, se eu morro hoje ia ser uma merda. É uma idéia mais recorrente, nos finais do dia, ou quando a gente se pega enlouquecendo com uma fechada na rua, um trabalho mal feito, uma conversa indesejável.

Nem as aparências deveriam enganar. Essa vida é coleção especial de marca chique para loja de departamento. A gente acredita que está arrasando comprando aquela peça por precinho aceitável em 12 vezes no cartão sem juros. Mas desconjura logo depois da primeira lavada.

Nem a marca chique, nem as lojas Marisa deveriam ter tanto poder de me fazer feliz. Nem o playboy que me fecha, nem o cliente que me xinga poderiam me fazer tão infeliz. Por que não vou levar nada disso, quando eu bater as botas. Óbvio, mas quem pensa nisso ao surtar?

Todo ser humano quer ser feliz e parar de sofrer. Toda vez que escuto a máxima budista, complemento mentalmente com minha mente intoxicada: ser feliz, parar de sofrer e perder 5 quilos. E embora todas as minhas ações sejam orientadas para isso, vira e mexe me entupo de chocolate, raiva, apego e egoísmo.

A gente se engana que ainda vai ter todo o tempo do mundo para ser feliz, a precinhos módicos, sem muito esforço. Mas essa ilusão não encara uma ensaboada de sabedoria sem desfazer.

Talvez eu morra hoje. E pelo menos talvez possa ter feito algum bem a alguém lembrando que também esse pode ser seu último minuto. Talvez eu tenha feito alguém feliz por um minuto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Telefonia menstrual

Celular de mulher deveria ter detector de hormônios. No auge da TPM, bloquearia todos os contato exceto os números da polícia, bombeiro e da casa da mãe.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Bem-te-vivi

Canto acima das antenas de televisão. Mas meu ninho construo bem longe dos olhos. Escondo o abrigo mas arregalo as sombrancelhas e espalho bem alto. Bem-te-vi mundo doce pitanga. Felicidade é isso, apesar dos pesares.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cascuda

Se casca tem muito mais nutriente do que a polpa, poupem minhas cascas, por que a polpa está só o bagaço.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amor com catapora

E eu que me julgava imune, quando foi que eu mudei? Lembro de um colega de trabalho que chorou muito por um amor perdido. Virávamos noites numa ilha de edição. Muitas delas assisti incrédula suas lágrimas molharem o teclado, enquanto trabalhava. Achava ridículo, fraco.
 
Todo mundo deveria sofrer por amor bem jovem, como uma vacina. Se não imunizasse seria uma amostra grátis, como resfriado leve, para enfrentar uma possível gripe forte ou para saber cuidar de quem padece. 

Por que coração partido é um vírus. Tem quem nunca se contamine. Tem quem se torne mais forte ou, ao contrário, sem imunidade nenhuma. Coração partido deveria ser como catapora. Todo mundo já teve um dia. Coça por um tempo e deixa marquinhas até que simpáticas às vezes.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pelos comboios de nossa infância

Nosso exército em exercício aquático

Distâncias alongavam nossa valentia, que se estendia além do percurso. O desafio era andar pelo trilho do trem. Mesmo que trem nunca tenha passado e testado nossa coragem bafando nos nossos cangotes.
Mas tinham os preparativos. Doces e salgadinhos indecentes socados numa sacola. Duas botas para vinho espanholas que meu pai emprestava para carregar bebida à tiracolo. Coca-Cola quente e sem gás.
Saíamos anunciando a aventura aos adultos da casa. Fila de moleque farejando descobertas. Era borbulhar de vida brotando da terra vermelha em cupinzeiros destruídos pelas estradas. Aquarela de borboletas tingindo cada curva. Pedras perfeitamente roliças a pesar como tesouros nos bolsos.
E iniciava sinfonia. Tum, tum, crec, crec, chuf, tum. Cada passada burilava uma nota musical em trilhos abandonados, ora cobertos de pedra, ora por mato ou barro.  Perna curta do irmão mais novo descompassando de leve a batucada. Um metrônomo convidando o pensamento voar além dos horizontes.

Os horizontes para nós eram os mais incríveis, embora fossem singelos campos carecas e plantações de cana. Mas haviam as mamonas que nos ofereciam espinhos gostosos de acertar em perna desavisada. Carecas de padre pedindo para serem sopradas. Teias de aranha brilhantes ao sol. Calangos sorrateiros farfalhando encostas e despertando sustinhos gostosos na gente.
 
A bolsa passava de boca em boca distribuindo a bebida, que escorria pelas bochechas coradas, pintando camisetas imundas. Andávamos, suávamos, cansávamos, comíamos e voltávamos.  O passeio podia durar alguns minutos ou longas horas.

Novidade somente era nova cerca, plantação ou toca de bicho. Emoção forte mesmo foi um mergulho em lagoa que resultou em cortes no pé de um dos soldados. Foi quando o batalhão compenetrou-se em logística de resgate baseada em chamar um pai solícito. Ou riscos altíssimos presenciamos quando meu irmão mais velho caiu da pinguela de cabeça numa fossa. Riscos sanados com banho ainda mais reforçado de Lysoform.
Os brinquedos seguiam-se em cavernas cavadas nos montes de terra vermelha. Piscina plástica com mais mijada do que água. Rondas alucinadas pelas campas do cemitério vizinho. Réplicas de carrinhos de rolimã com rodas de carretéis de linha gigantes descartados pela fábrica do bairro.

Infância era diversão. Era ser valente sem precisar de motivo. Era acumular tesouros sem ter que comprá-los. Simplesmente por que éramos crianças éramos felizes. Uma jornada boa de percorrer de volta para encontar nosso maior aprendizado. A alegria genuína de apenas andar pelo trilho, sem nunca se cobrar um destino, mas sempre cultivando a certeza de gozar cada momento do caminho.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Da escrita de escafandrista


Escreve quem precisa desvencilhar-se de si. É esgotar perguntas sem respostas pelo cansaço de organizar palavras.
É estiolar pensamentos compulsivos. Sufocar ilusões em palavras daninhas. É podar a planta para que o caule torne-se tenro e as folhas vigorosas. Jardinar a mente e florescer a alma.
É arqueologia da vida, escavando a poesia soterrada por eras dia a dia. Porque, as vezes, é preciso se desenterrar para não virar um dinossauro..
Começa como sobrevivência. Sem teorias, a cura é poesia. É a válvula que precede o escape. A salvo o autor, a escrita está livre para a literatura.
É fazer despacho de palavras, na encruzilhada de parágrafos. É distribuir oferendas de frases. Traz de volta a pessoa amada. Nesse caso, o próprio autor.
Escrever é transbordar a alma. Transbordo com a violência de cheias de fim da tempestade. Não cabe em comportas de fingimento.

Sobram os leitos da prosa débil. O seu percurso irriga campos e busca desaguar em mares de calmaria. O percurso é cumprido por navegantes que se arriscam em águas turvas.

Escrevo para que eu escute a música que toca aqui dentro. E para que talvez lá fora, alguém também escute. E quem sabe até cante comigo, me ajudando a desvendar trechos da letra que não entendo...

Escrevo como quem luta para preservar a fonte cristalina ameaçada pelo desejo de esgotar o ser.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Gropoun sentimental

- Alô.
- Sim, é ele mesmo.
- Sim, é daqui a reserva, preciso com urgência.
- Como assim não têm em estoque, faz mais de um mês que encomendei!
- Ah, é óbvio que aumenta a demanda no final de ano...
- Eu já sei, meu querido, tem o cansaço, um monte de merdas não resolvidas que vão ficar para o ano que vem, e os malditos Natal e Ano Novo.
- Sei que esgotou rápido demais, procura alta. Mas a minha paciência já esgotou faz tempo. Não tenho mais, entende? Estava contando com vocês.
- Como assim, só em janeiro? Você acha que vou aguentar até lá com esse estômago fodido?
- Amigão, se vira, mas eu tô me virando do avesso com esse aqui. Não tem um dia que eu não lamente os sapos que eu engoli para ficar nesse estado.
- Isso que dá acreditar nessas ofertas de Groupon.
- Bom, queridão, eu tô à beira de um ataque de nervos. Preciso da sua ajuda. Pelo amor de Deus, eu estou pedindo.
- Ah, o que? Não, não, não me coloca na espera. Ah, meu pai - grita.
- #grunhidos# Meu coração, ugh.
- Tuuuuuuuu....

Ele nunca retirou a reserva. O atendente até tentou entrar em contato em fevereiro, mas o número de celular já não existia. Por isso que paciência ainda não se vende e nem se empresta, senão ia ser esse inferno.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

E eu lembrei da minha Caloi

Com uns sete anos tirar rodinhas da bicicleta Ceci foi um drama. Meu tio ganhou dois meses de academia grátis. Em corridas incansáveis ao meu lado, ele me amparava para seguir sem aquele apoio para criancinhas, durante as férias de verão. 
 
Muitos joelhos ralados depois, confesso que ainda ando muito mal de bicicleta, mas sem rodinhas. E vou amar meu tio por toda vida por tanta paciência dedicada.
 
Agora quero deixar as minhas rodinhas de mulher escaldada. Estou cansada de terapias, conjecturas, temores e mil planos do Cebolinha para não me ralar mais. Embora cercada de gente muito querida, incluindo um homem muito amado, essas rodinhas tenho que largar sozinha.
 
Eu me sinto feliz nesses dias de novas tentativas, mas completamente apavorada. Um ventinho no rosto, a felicidade da liberdade cambaleante e ainda escuto a voz do meu tio correndo ao meu lado: "agora vai sozinha, Ju".
 
Buda e todos os seres iluminado me amparem nos ralados, que eles sirvam para me fazer alguém melhor. Ou quem sabe eu nem me rale mais.

Quem sabe?

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Coveira às avessas

O lance é me desenterrar viva dessa vida. O coração já está quase pulsando limpo. Mas sigo sempre cavando. E cuspindo ainda muitos torrões de terra, acertando em quem não devia, em quem eu não queria.

Espero que perdoem essa coveira desajeitada.