domingo, 6 de janeiro de 2013

Para presente

Começou empacotando um dedo mindinho. Como ele não fizera falta, experimentou guardar mais dois ou três dedos.

Embalava-os em embrulhos coloridos para, quem sabe um dia, a coragem rasgar cada um deles. Já tinha guardado em papel presente vários dedos, toda uma perna, quando pessoas notaram. Tarde demais.

Estava distribuída em caixas lindas, adornadas em fitas. Alguém ainda teve idéia . Depois de ser aproveitada para decoração de Natal, seus pacotes foram encaminhado para reciclagem.
 
Seria vacuidade? Não tinha certeza, afinal distribuiu a pessoas queridas pedaços. Nada grande que estorvasse. Uma piscada, um cheiro, um trejeito único. Mas ninguém confirma se os guardaram ou perderam por aí.

Só deixou recomendações para preservação de um pacote. À guisa de epitáfio, a embalagem do sorriso levava um pequenino cartão escrito em letra miúda: guarde, por que embalagens de presente e sorrisos nunca deveriam ser esquecidos, ainda mais quando abertos juntos.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Tal qual uma Playboy

Arrancou a roupa das palavras, para mostrar o seio nu do pensamento. Um bico rosado apareceu da poesia, embora tentasse esconder em vão a teta murcha de idéias incertas.

Por que a palavra escrita é sem vergonha. Saiu de braço dado mostrando a bunda.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Corando

Aninha e suas pedras
Cora Coralina
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Incendiando a contabilidade de 2012

Final de ano tem cheiro de fumaça de rescaldo. É resfriar aquilo que chamuscou. Contalibilizar o que se consumiu. Abraçar o que se salvou. Abandonar a limpeza das fuligens das paredes. Acomodar todos os pertences num sorriso, e finalmente seguir para morada de um novo ano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Calendário em descompasso

De que adianta a sexta-feira, se aqui tem sido uma eterna segunda-feira? E nos sábados , é no máximo quarta-feira. E os domingos se emendam, depois que cai a noite, entre compridas segundonas.

Mas a sexta-feira ainda há de chegar, e até a quinta-feira vai ter sua beleza, assim como a quarta-feira sua graça e a terça vai ser até agradável. Mas a segunda, segue sendo a segunda, tem jeito não.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não me engana que eu gosto

Talvez eu morra hoje. Quem pensa nisso ao acordar? Tão óbvio, mas difícil de acreditar. Mais provável a certeza de cometer um homicídio quando é o cliente cobrando, funcionário aprontando, fechamento chegando e a geladeira pifada de novo.

Ai, se eu morro hoje ia ser uma merda. É uma idéia mais recorrente, nos finais do dia, ou quando a gente se pega enlouquecendo com uma fechada na rua, um trabalho mal feito, uma conversa indesejável.

Nem as aparências deveriam enganar. Essa vida é coleção especial de marca chique para loja de departamento. A gente acredita que está arrasando comprando aquela peça por precinho aceitável em 12 vezes no cartão sem juros. Mas desconjura logo depois da primeira lavada.

Nem a marca chique, nem as lojas Marisa deveriam ter tanto poder de me fazer feliz. Nem o playboy que me fecha, nem o cliente que me xinga poderiam me fazer tão infeliz. Por que não vou levar nada disso, quando eu bater as botas. Óbvio, mas quem pensa nisso ao surtar?

Todo ser humano quer ser feliz e parar de sofrer. Toda vez que escuto a máxima budista, complemento mentalmente com minha mente intoxicada: ser feliz, parar de sofrer e perder 5 quilos. E embora todas as minhas ações sejam orientadas para isso, vira e mexe me entupo de chocolate, raiva, apego e egoísmo.

A gente se engana que ainda vai ter todo o tempo do mundo para ser feliz, a precinhos módicos, sem muito esforço. Mas essa ilusão não encara uma ensaboada de sabedoria sem desfazer.

Talvez eu morra hoje. E pelo menos talvez possa ter feito algum bem a alguém lembrando que também esse pode ser seu último minuto. Talvez eu tenha feito alguém feliz por um minuto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Telefonia menstrual

Celular de mulher deveria ter detector de hormônios. No auge da TPM, bloquearia todos os contato exceto os números da polícia, bombeiro e da casa da mãe.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Bem-te-vivi

Canto acima das antenas de televisão. Mas meu ninho construo bem longe dos olhos. Escondo o abrigo mas arregalo as sombrancelhas e espalho bem alto. Bem-te-vi mundo doce pitanga. Felicidade é isso, apesar dos pesares.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Cascuda

Se casca tem muito mais nutriente do que a polpa, poupem minhas cascas, por que a polpa está só o bagaço.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amor com catapora

E eu que me julgava imune, quando foi que eu mudei? Lembro de um colega de trabalho que chorou muito por um amor perdido. Virávamos noites numa ilha de edição. Muitas delas assisti incrédula suas lágrimas molharem o teclado, enquanto trabalhava. Achava ridículo, fraco.
 
Todo mundo deveria sofrer por amor bem jovem, como uma vacina. Se não imunizasse seria uma amostra grátis, como resfriado leve, para enfrentar uma possível gripe forte ou para saber cuidar de quem padece. 

Por que coração partido é um vírus. Tem quem nunca se contamine. Tem quem se torne mais forte ou, ao contrário, sem imunidade nenhuma. Coração partido deveria ser como catapora. Todo mundo já teve um dia. Coça por um tempo e deixa marquinhas até que simpáticas às vezes.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pelos comboios de nossa infância

Nosso exército em exercício aquático

Distâncias alongavam nossa valentia, que se estendia além do percurso. O desafio era andar pelo trilho do trem. Mesmo que trem nunca tenha passado e testado nossa coragem bafando nos nossos cangotes.
Mas tinham os preparativos. Doces e salgadinhos indecentes socados numa sacola. Duas botas para vinho espanholas que meu pai emprestava para carregar bebida à tiracolo. Coca-Cola quente e sem gás.
Saíamos anunciando a aventura aos adultos da casa. Fila de moleque farejando descobertas. Era borbulhar de vida brotando da terra vermelha em cupinzeiros destruídos pelas estradas. Aquarela de borboletas tingindo cada curva. Pedras perfeitamente roliças a pesar como tesouros nos bolsos.
E iniciava sinfonia. Tum, tum, crec, crec, chuf, tum. Cada passada burilava uma nota musical em trilhos abandonados, ora cobertos de pedra, ora por mato ou barro.  Perna curta do irmão mais novo descompassando de leve a batucada. Um metrônomo convidando o pensamento voar além dos horizontes.

Os horizontes para nós eram os mais incríveis, embora fossem singelos campos carecas e plantações de cana. Mas haviam as mamonas que nos ofereciam espinhos gostosos de acertar em perna desavisada. Carecas de padre pedindo para serem sopradas. Teias de aranha brilhantes ao sol. Calangos sorrateiros farfalhando encostas e despertando sustinhos gostosos na gente.
 
A bolsa passava de boca em boca distribuindo a bebida, que escorria pelas bochechas coradas, pintando camisetas imundas. Andávamos, suávamos, cansávamos, comíamos e voltávamos.  O passeio podia durar alguns minutos ou longas horas.

Novidade somente era nova cerca, plantação ou toca de bicho. Emoção forte mesmo foi um mergulho em lagoa que resultou em cortes no pé de um dos soldados. Foi quando o batalhão compenetrou-se em logística de resgate baseada em chamar um pai solícito. Ou riscos altíssimos presenciamos quando meu irmão mais velho caiu da pinguela de cabeça numa fossa. Riscos sanados com banho ainda mais reforçado de Lysoform.
Os brinquedos seguiam-se em cavernas cavadas nos montes de terra vermelha. Piscina plástica com mais mijada do que água. Rondas alucinadas pelas campas do cemitério vizinho. Réplicas de carrinhos de rolimã com rodas de carretéis de linha gigantes descartados pela fábrica do bairro.

Infância era diversão. Era ser valente sem precisar de motivo. Era acumular tesouros sem ter que comprá-los. Simplesmente por que éramos crianças éramos felizes. Uma jornada boa de percorrer de volta para encontar nosso maior aprendizado. A alegria genuína de apenas andar pelo trilho, sem nunca se cobrar um destino, mas sempre cultivando a certeza de gozar cada momento do caminho.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Da escrita de escafandrista


Escreve quem precisa desvencilhar-se de si. É esgotar perguntas sem respostas pelo cansaço de organizar palavras.
É estiolar pensamentos compulsivos. Sufocar ilusões em palavras daninhas. É podar a planta para que o caule torne-se tenro e as folhas vigorosas. Jardinar a mente e florescer a alma.
É arqueologia da vida, escavando a poesia soterrada por eras dia a dia. Porque, as vezes, é preciso se desenterrar para não virar um dinossauro..
Começa como sobrevivência. Sem teorias, a cura é poesia. É a válvula que precede o escape. A salvo o autor, a escrita está livre para a literatura.
É fazer despacho de palavras, na encruzilhada de parágrafos. É distribuir oferendas de frases. Traz de volta a pessoa amada. Nesse caso, o próprio autor.
Escrever é transbordar a alma. Transbordo com a violência de cheias de fim da tempestade. Não cabe em comportas de fingimento.

Sobram os leitos da prosa débil. O seu percurso irriga campos e busca desaguar em mares de calmaria. O percurso é cumprido por navegantes que se arriscam em águas turvas.

Escrevo para que eu escute a música que toca aqui dentro. E para que talvez lá fora, alguém também escute. E quem sabe até cante comigo, me ajudando a desvendar trechos da letra que não entendo...

Escrevo como quem luta para preservar a fonte cristalina ameaçada pelo desejo de esgotar o ser.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Gropoun sentimental

- Alô.
- Sim, é ele mesmo.
- Sim, é daqui a reserva, preciso com urgência.
- Como assim não têm em estoque, faz mais de um mês que encomendei!
- Ah, é óbvio que aumenta a demanda no final de ano...
- Eu já sei, meu querido, tem o cansaço, um monte de merdas não resolvidas que vão ficar para o ano que vem, e os malditos Natal e Ano Novo.
- Sei que esgotou rápido demais, procura alta. Mas a minha paciência já esgotou faz tempo. Não tenho mais, entende? Estava contando com vocês.
- Como assim, só em janeiro? Você acha que vou aguentar até lá com esse estômago fodido?
- Amigão, se vira, mas eu tô me virando do avesso com esse aqui. Não tem um dia que eu não lamente os sapos que eu engoli para ficar nesse estado.
- Isso que dá acreditar nessas ofertas de Groupon.
- Bom, queridão, eu tô à beira de um ataque de nervos. Preciso da sua ajuda. Pelo amor de Deus, eu estou pedindo.
- Ah, o que? Não, não, não me coloca na espera. Ah, meu pai - grita.
- #grunhidos# Meu coração, ugh.
- Tuuuuuuuu....

Ele nunca retirou a reserva. O atendente até tentou entrar em contato em fevereiro, mas o número de celular já não existia. Por isso que paciência ainda não se vende e nem se empresta, senão ia ser esse inferno.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Errata de arrependimentos

Não dê desculpas que precedem as culpas. É passar corretivo depois do ponto final da frase  mal escrita.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012