terça-feira, 9 de outubro de 2012

Temperança

À vida da gente não se dá gosto logo que nasce. Ela pode até ser servida num prato bonito. Mas descobre-se a vida aos bocados. Garfadas amargas, entre colheradas doces.  

E a vida, a gente tempera, enquanto engole mesmo. É bom meditar sobre a receita ou, ao menos, que efeito se espera ao final da refeição. E manter a mente aberta para os ingredientes que surgem ao longo do preparo, por que embora tenhamos escolhido cada um deles em algum momento, somos cozinheiros esquecidos de nossa lista de compras.

Viver, meditar, cozinhar, tem que praticar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Em crisálida me sonhei

Borboleta de rosa cor lembrança, no lençol que me cobriu menina. Eu me senti tão trapo velho, quando o encontrei no quarto antigo. Admirei as asas de sonhos ingênuos. E impresso no pano senti o cheiro morno de casa de mãe.

E eu que tento parecer tão fodona, mulherzinha,  meio loura, meio descolada, fiquei desbotada de saudades daquela criança.  Tão bobinha acreditava que hoje já seria uma borboleta. Mas ainda é lagarta ávida por novos dias, novos sonhos, novas paisagens que me acalmem dos meus medos, das minhas confusões.

Um dia ainda ressucito de vez. Mas se puder escolher, hoje prefiro renascer vaga-lume. Borboletas são só para meninas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Jardinando você

Já fui invadida por um deserto. E você trouxe terra boa e fértil para eu reflorestar. Procurava diamantes em vão. Hoje, semeio, rego e cresço.

Montes de areia seca esparramam-se ainda em cantos. Mas abri um caminho para o melhor lugar do mundo. 

É no seu peito que eu vejo gérberas amarelas. São flores simples, mas me parecem idiotamente felizes, como nos prometemos ser. E somos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A culpa dela

Toda segunda-feira, sou uma história que tento contar para mim. Conto as tarefas que vou repetir, as angústias a revisitar, os planos redesenhados e já abandonados e as saudades que imediatamente começo a sentir de dias que posso ser. Sinto pena das minhas penas e elaboro saídas que nunca chegam ser claramente mapeadas.

Começo a semana extenuada do trabalho inútil. Mas não encontro solução a não ser me encantar ou enganar por mais alguns dias, Sherazade de longos dias.

As pessoas devem procriar, drogar-se, escrever romances, fazer plásticas ou se alistar no médicos sem fronteiras apenas para evitar esse torturante quarto de hora semanal. Para evitar listas mentais de prós e contras, sem justificativa, apenas seguir. Sem chance de voltar atrás.

Deve ser por isso, por causa da segunda-feira.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Zécutiva: mínimas gerenciais

1- Princípio da larica, fazer o que dá com o que tem.
2- O fundo do poço tem porão. Nunca diga que pior não fica.
3 - Não é gambiarra, é RTA - recurso técnico alternativo.
4- A humanidade é inviável, mas ainda não conseguimos contratar apenas poodles coloridos.

Vamos complementando nosso pessimismo ao longo da construção de novas mínimas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vigilante do jeito

Quero aprender cozinhar palavras doces. Deixá-las de molho para que amoleçam. Retirar qualquer espinho que machuque ouvidos delicados. Aquecê-las devagar com breves pausas e sem pressão. E cobrí-las de caramelo ao ponto da delicadeza. E ainda me farto de doçura, assim como tem me enjoado a acidez das frases que preparo hoje. Nesse dia, acho um ponto para acertar o sal e o doce e nunca mais fujo da dieta.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vagareza

Sou de vagar. Vagar sonhos e expectativas para o novo ocupar. Ainda aprendo que sonhos não deveriam ocupar espaços. Porque o único desejo válido é justamente acordar do sonho.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Das calcinhas que eu bagunço

Ser feliz é questão de coragem e disciplina. E eu tenho medo por não conseguir nem manter a ordem da minha gaveta de calcinhas. De tempos e tempos, saio arrumando tudo, com a certeza de que vou bagunçar novamente.

Fiz lista de tarefas para organizar as gavetas dos dias que se desorganizam. Tempo para contemplar os dias e espaço para circular os sentimentos. São novos dias de armários enxutos, renunciando às montanhas de quinquilharias inúteis a soterrar a vida. Guardando com apreço só aquilo que me faz feliz.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Coração botando ovo

"Minha saudade é tanta que meu coração parece uma galinha. Ele vai sair correndo pela sala e eu não vou conseguir alcançar".

Dele, que fez meu coração parecer um pintinho carente

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Zécutiva: roupa suja a gente fala mal em casa

Sinto frio na espinha toda vez que sou solicitada a dar referências de ex-funcionários para possíveis contratantes. À parte os casos de pessoas com comportamentos condenáveis gritantes - falta de ética, falta de compromisso, desrepeito - detesto esse poder de interferir na avaliação de outra pessoa. Alguém que não se adapta num contexto, pode muito bem ser a solução em outros lugares.

Assim como nos casamentos, a maioria dos contratos termina por que alguma coisa deixou de funcionar. Mas falar mal de ex a gente só faz entre amigos. A não ser aqueles casos que o ex é a encarnação do traste.

Redes de relacionamento profissional, sites de empregos dão espaços para que profissionais referenciem-se uns aos outros. É um banho de elogios. Nunca vi ninguém comentar: fulano atrasava todo dia, tinha problemas de relacionamento terríveis com a equipe, não respeitava prazos. É só babação de ovo.

São frequentes os casos em que me sinto ex-mulher com poder de decidir o destino de ex. É só um gaguejar de palavras muito bem medidas, quando o ex-funcionário não cometeu nenhum pecado capital, apenas não rolou por uma divergência de interesses. Além disso, se uma pessoa que trabalhou há 5 anos atrás comigo pode ter melhorado, piorado e até mudado de sexo. Quem sou eu para condenar ou promover um ser por um intervalo de tempo que convivi com ele no passado?

Não significa que seja uma santa com a equipe. Em geral, tenho que me controlar para não criticar exageramente, não ser dura. Mas é sempre aquela história, roupa suja se lava em casa. Se for lavar em outro tanque, fica de olho por que não serei eu a apontar as manchas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Confeitaria sentimental

"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." 
Guimarães Rosa

Sou massa de saudades. Elas fermentam e transbordam disformes. Queimam nas bordas mas mantêm-se cruas por dentro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Arriando as calças da consciência

Embora exiba renovadas idéias e comportamentos, como roupas novas e descoladas, ainda me frustro quando me deparo com as calcinhas furadas dos meus mais antigos desejos. São peças vexatórias e puídas. Mas são confortáveis. Ou recebidas de alguém em algum momento e guardadas no fundo da gaveta. Como aquele presente de tia, que você nunca vai usar, mas não doa achando que um dia vai encarar.

Toda vez que arrio as calças da minha consciência, eu me envergonho. Ela é brega e completamente fora de moda. Insiste em uns modelões de arrepiar qualquer bom senso.

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Feliz por um triz

É isso, mas depois a gente comenta. Bibelô em música da minha xará linda Juju Fina Flor, phiníssima por sinal:

Feliz por um triz

Sou feliz por um triz
Por um triz sou feliz

Mal escapo à fome
Mal escapo aos tiros
Mal escapo aos homens
Mal escapo ao vírus
Passam raspando
Tirando até meu verniz

O fato é que eu me viro mais que picolé
Em boca de banguelo
Por pouco, mas eu sempre tiro o dedo - é
Na hora da porrada do martelo
E sempre fica tudo azul, mesmo depois
Do medo me deixar verde-amarelo
Liga-se a luz do abajur lilás
Mesmo que por um fio de cabelo

Sou feliz por um triz
Por um triz sou feliz

Eu já me acostumei com a chaminé bem quente
Do Expresso do Ocidente
Seguro que eu me safo até muito bem
Andando pendurado nesse trem
As luzes da cidade-mocidade vão
Guiando por aí meu coração
Chama-se o Aladim da lâmpada neon

E de repente fica tudo bom

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Saudades em calda

Vó, carinho de tarde fria.
Um grito antigo de vogal comprida.
Ao pé do fogão, ninguém mais cozinha.
Saudades é maçã cozida.