Uma amiga, trainee de chef de cozinha, contou-me que quando foi admitida na cozinha de um grande hotel foi hostilizada pela equipe totalmente masculina. Chegou a ouvir que cozinha não era lugar de mulher. Afirmação de arrepiar a nuca de gerações passando por Dona Benta, Palmirinha à Nigella. O caso ilustra o papel mal resolvido da mulher contemporânea, mesmo em ambientes antes dominados por elas.
Sempre fui educada para ter carreira profissional, independência emocional e financeira. Mas, desde que me entendo por gente, na maioria dos almoços familiares, eu ajudava a tirar a mesa e lavar louça reclamando da ala masculina que ia cuidar de se espreguiçar e seguir a conversa em outro canto. Somos condicionadas a cuidar e servir mesmo que violentando nossa própria natureza.
E educamos gerações a tratar a mulher de forma utilitária. E não nos questionamos quando condicionamos até mesmo nossa imagem à um universo bem masculino de folhinha de parede de borracharia.
O Dia Internacional da Mulher é motivo de vergonha e tristeza, ainda que reconheçamos seu papel conscientizador. Em meio ao nosso simulacro moderno e ocidental de independência feminina, o dia nos lembra que ainda somos grandes vítimas de abusos físicos e morais e desigualdades sociais.
Adoro toda a força sensível e cercada de deliciosas futilidades que ser mulher representa. Deve ser muito triste para um homem não poder enlouquecer por alguns minutos por encontrar a cor do batom mais linda dos últimos tempos. Mas vou gostar ainda mais de ser mulher quando não houver sentido celebrar um dia internacional da mulher. Felicidade é desfrutar com igualdade de nossas diferenças.
Em tempo, a aprendiz de chef de cozinha hoje é a segunda na hierarquia da equipe enorme de homens. Por outro lado, na minha família, os homens ainda mal sabem manejar a esponja e o detergente.