Se há um terreno em que, a cada gargalhada, você é medido como um marginal portador de cigarrinhos do capeta é no ambiente corporativo. A felicidade é clandestina e perseguida, como pontificou minha traficante preferida, a Monga Executiva.
"É preciso muita firmeza de propósitos pra convencer os decisores das intituições de que nós, usuários e defensores desta morfina organizacional chamada FELICIDADE podemos exercer dignamente as funções para as quais somos pagos fazendo uso dela".
Adorei ter uma companheira na campanha de legalização da felicidade (e ela me lê, que emoção). Sorriso e humor leve deveriam constar nos requisitos de descrição de funções, com atenuantes para os dias de TPM, óbvio. Nesses dias, até aceito um "bom dia porque".
Eu e meu irmão tínhamos duas tartarugas. Entediadas pela vida aquática, elas insistiam em pular do aquário. E caminhavam camufladas pelo tapete verde da sala ou pelas lajotas verdes do quintal. Em cada fuga, uma gritaria. Criança da cidade não bota mão em coisa viva. E minha avó saia à captura dos bichos. Xingando em portunhol enrolado, despejava as pobres de volta ao cativeiro envidraçado.
Foram muitas tentativas de exploração terrestre, até que minha avó, exasperada pelas caçadas imprevistas, resolveu definitivamente o assunto. Jogou as tartarugas na privada e deu a descarga. Sem muitas explicações, porque espanhola resolve, não explica.
Ela imigrou ao Brasil, depois de uma longa estadia em campos de concentração na França para fugitivos da Guerra Civil Espanhola. Chegou com outros espanhóis que, por fim, voltaram à Espanha. Perdeu o marido cedo. Tornou-se uma mulher prática.Vivia só, resolvia as coisas a seu jeito, mesmo que tivesse que afogar tartarugas. Creio que nem feliz nem triste. Aceitava resignada o exílio que a vida, as guerras, a distância lhe proporcionaram.
Aos 87 anos, adoeceu gravemente e passou cerca de três meses encerrada num quarto cinza de hospital, ligada a um respirador. Nesse período, não aceitava televisão, rádio, livro ou qualquer distração que lhe amenizasse o calvário. Passava horas de olhos fechados, só o som mecânico do pulmão imposto a marcar tempo. Não sei o que pensava. Acredito que recuperava os fatos que ao longo da vida teve que esquecer para sobreviver.
Mais de uma vez, ela sugeriu que a desligassem daquela máquina irritante. Hoje, acredito que era a melhor alternativa, dadas as condições. Mas com 19 anos, eu só conseguia me horrorizar e cantar. Das poucas canções que ela aceitava ouvir era "Maria Bonita", que segundo meu pai, foi a prefirida do meu avô. Uma linda letra que fala justamente de lembranças. Exaltava recordações de um homem apaixonado. Talvez meu avô cantasse para ela, que também era Maria.
Quando ela se foi, sobreviveu comigo a tristeza de ter acompanhado seus últimos dias. Mas minha avó era a sobrevivente, e me mostrou que tudo aquilo que chateia merece ser descartado, sem explicações. Isso é ser sobrevivente.
Desde então, eu me tornei especialista em descartar fatos desagradáveis. E quando não suporto mais tantas tartarugas afogadas, ao meu redor, busco meu consolo. Lembro que até minha avó, uma espanhola, endurecida pela guerra e campos de concentração, sobreviveu, e conseguiu salvar até o fim sua Maria Bonita.
Depois que se passa muito tempo sobrevivendo, viver não é mais natural. É desligar o respirador artificial. Sem marcapasso. Percurso em respiração livre. Inspira e expira. Sem a certeza da próxima lufada. Livre para perder o fôlego.
Encho os pulmões, até que doam de não se caber mais. Mas ainda de camisolinha de quarto de hospital. De bunda de fora. Mas muitas inspirações no último ano dão coragem para ir cada vez mais longe...
Até Buda tirou férias. Já que os seres sencientes tiveram o ano todo para se iluminar e não tiveram sucesso, ele resolveu dar um tempo. O templo que frequento está fechado. E eu, dependente de darma, só piorando o meu carma.
Tropeço pela vida no escuro. E xingo. Procuro uma vela perdida no fundo de alguma gaveta da alma. O racionamento de luz está prejudicando o andamento das atividades por aqui.
Minha espiritualidade é um canteiro de obras, sem prazo de inauguração. Um plano ambicioso de metas de crescimento pessoal, atrasadas e mal executadas, que faria do PAC do governo federal um exemplo de eficiência.
E não adianta buscar ajuda externa. Vários pedidos de apoio foram ineficientes, frustrantes e geraram mais tristeza. Todo ser humano deve ser auto-suficiente em matéria prima para seu fortalecimento interior. O remédio está em alguma fonte escondida nesse eu em reforma. Tem que cavocar para localizar a nascente.
Mas espero voltar às atividades normais de reconstrução, com um pouco de descanso, e rotina, depois de um fim de ano frenético e cansativo. Se contar a vontade política, meu mandato ainda tem alguma chance de êxito.
E volta Budinha (desculpe pela brincadeira das férias)!!
Lidar com a dor é como dobrar um endredon, você vai dobrando, ajeitando, até virar um rolinho que caiba na gaveta. Depois que você aprende a dobrar uma vez tudo fica mais fácil. Um dia você esquece do endredon na gaveta, até que ele não serve mais para nada.
O meu endredon já cabe na gaveta, embora, por vezes, a porta do armário ainda abra.
Se eu sentir frio? Melhor pegar um cobertor quentinho. Um dia de sol, um novo amor, uma gargalhada em famíia, uma música doce. E assim vamos nos cobrindo, até o próximo verão.
A felicidade é um produto legalizado. É como álcool, cigarro. É bom, em doses adequadas. Causa medo porque vicia. Foi assim que meu irmão mais novo desbancou meu ideal de legalização de felicidade clandestina.
Já Buda é mais direto, felicidade é controle da mente. Essa mente que, como um adolescente obeso, adora se fartar de porcarias, prejudicando sua saúde. Uma dieta de bons pensamentos e ações é o que nos mantém saudáveis e felizes.
De um modo ou de outro, sigo meu mantra, só por hoje vou ser feliz. Mas confesso, que tem dia que não rola. Devoro tudo o que vejo pela frente com minha mente esfomeada e compulsiva. Depois ainda quero a iluminção, tão hipócrita quanto adoçante no café depois da feijoada.
O tiquetitar parecia um relógio descompassado. Mas era a bengala de uma cega. Ela atravessava a rua levada pelo braço por um carteiro. Um ponteiro vacilante, no escuro, tateava caminhos, pelas últimas horas do ano. Terminava o dia 31 de dezembro.
Meu estômago gelou, enquanto as mãos suavam ao volante, aguardando o semáforo abrir.
O carteiro a deixou no ponto de ônibus e se despediu. Como uma entrega, sem remetente ou destinatário. O homem seguiu e a cega manteve diálogo solitário. Como saberia qual ônibus tomar? Não se cansava de balbuciar frases. Onde iria aquela hora em total escuridão? E o maldito farol se demorava em mudar.
Quando o semáforo abriu, acelerei. Fugi. Sem coragem de encarar o retrovisor. Onde eu iria em minha total escuridão? Durante a queima de fogos naquela noite, experimentei fechar os olhos. Pois era assim que a cega me mostrou ser.
Estava em dúvida em qual área de conhecimento me aprofundar esse ano. Depois de muito refletir, troquei o curso de gestão de pessoas pelo curso de palhaço numa academia de circo. Por que definitivamente não existe melhor habilidade do que levar a vida com humor, mesmo quando a equipe insiste em bombardeios de tortas de falta de comprometimento.
O ano ainda não tinha nascido, mas já se prenunciava com uma primavera de nascimentos. Vó, vô, bisavó, tio, tia, pai e mãe brotaram com a notícia de que a família vai aumentar. E todos ganharam novos papéis, numa frenética atribuição de sonhos e responsabilidades. Eu, filha, irmã e titia. E o menino que brigava para não vestir uniforme do colégio, despejava o almoço indesejado pela janela e trucidava minhas bonecas virou pai.
Recém-renascidos, agora nós ensaiamos e esperamos como quem aguarda um novo dia de sol a iluminar todos os cantos das nossas almas.
Para 2010, as dedicatórias, baseadas numa prece budista kadampa:
Pelas virtudes que coletei Praticando as etapas do caminho, Que todos os seres vivos tenham a oportunidade De praticar da mesma forma.
Que cada um experiencie A felicidade de humanos e deuses E rapidamente alcance a iluminação, Para que o samsara seja finalmente extinto.
Estas preces foram compiladas de fontes tradicionais pelo Venerable Geshe Kelsang Gyatso.
Segundo uma lenda oriental, ao dobrar 1000 tsurus com a mente focada em um desejo, ele se realiza. Para 2011, ainda que não dobremos mil tsurus, que nossa mente se foque em desejos auspiciosos.
Escrever começa como sobrevivência. Sem teorias, a cura é poesia. É a válvula que precede o escape. A salvo o autor, a escrita está livre para a literatura.
Quase me sinto autora. Em processo de alta da paciente.
Uma franja flutuante dançou no ar. Delicadamente, estendeu-se riscando a paisagem na janela. Ela identificou uma longa rabiola. Aproximou-se e esticou a mão para tocá-la. Mas por instantes, parou. A rabiola era poética. Pessoa, Bandeira, Vinícius em tiras de páginas de livros desfigurados.
Puxou o longo rabo de palavras que não completavam versos. Mas como um ponto final mal colocado, a linha rebentou. E ficou anônimo o autor revestia a pipa que jazeu enroscada no telhado.
Correu para rua embolando nas mãos a lírica despedaçada. E o rapaz, que preparava para decolar outro exemplar literário na calçada em frente, arregalou os olhos. As palavras, que se amontoavam nas mãos, sufocavam no coração acelerado. A imagem de livros dilacerados congelava a alma dela.
De onde você matou essas páginas, ela balbuciou. Encontrei no lixo, e apontou uma mochila cheia de livros velhos de capa dura. Ela tentou retrucar a frase, mas ele emendou em seguida, não leio, então coloco palavra para voar, que elas encontrem melhor destino que um livro sem gente para admirar.
Em troca dos livros, ela o ensinou ler. E a parceria, rendeu produção literária. As obras são o mais velho Manuel, por Bandeira, o menino do meio Fernando, por Pessoa e aguardam a pequena Clarice, que apesar de não ser poeta, é autora que dispensa apresentação.
Este conto é uma pequena reverência à minha xará Fina Flor que nos presenteou com uma imagem linda de seus sonhos em seu blog. Juju, obrigada e desculpe o aproveitamento onírico. Seu sonho me perseguiu e foi o melhor que pude fazer para me livrar dele.
Minha família é católica. Mas desde que me tornei budista, eles adotaram o Cred Carma como parâmetro para gastos de méritos. Um palavrão, 10 pontos descontados no cartão, mau humor, 100 pontos, maledicência, 500 pontos a serem diminuídos da milhagem com destino à iluminação. Já virou praxe um controlar os gastos do outro.
Nesse Natal, tivemos a alegria de esbanjar méritos. Uma família de sangue espanhol, com pitadas de italiano e português, consegue estourar o crédito iluminado rapidamente à beira de uma mesa regada à bebida. Torramos em piadas, bobagens, tirações de sarro e muitos palavrões, que a boca suja é fator genético.
Mesmo indo à banca rota pelo mau comportamento, fomos presenteados com uma alegria eufórica pelo simples fato de estarmos juntos. E há muito não sentia esse prazer coletivo entre as pessoas que mais amo. Nosso último Natal, foi extrema miséria de bem-estar. E acredito que fomos inundados também pelo sentimento de vitória por dificuldades superadas.
Agradeço ao administrador de nosso cartão de crédito, seja ele quem for, trocamos os pontos acumulados pelo melhor brinde do mundo, o amor.
Ó Abençoado, Shakyamuni Buda, Precioso tesouro de compaixão, Concessor de suprema paz interior, Tu, que amas todos os seres sem exceção, És fonte de bondade e felicidade, E nos guia ao caminho libertador. Teu corpo é uma jóia-dos-desejos, Tua fala é um néctar purificador e supremo E tua mente, refúgio para todos os seres vivos. Com as mãos postas, me volto para ti, Amigo supremo e estável, E peço do fundo do meu coração: Por favor, concede-me a luz tua sabedoria Para dissipar a escuridão da minha mente E curar o meu continuum mental. Por favor, me nutre com tua bondade, Para que eu possa, por minha vez, nutrir todos os seres Com um incessante banquete de deleite. Por meio de tua compassiva intençao, De tuas bençãos e feitos virtuosos E por meu forte desejo de confiar em ti, Que todo o sofrimento rapidamente cesse, Que toda a felicidade e alegria aconteçam E que o santo Darma floresça para sempre.
Esta prece foi composta por Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche. é recitada regularmente no início das sadanas nos centros budistas kadampa de todo o mundo." - (Extraído do Livro: Como Solucionar Nossos Problemas Humanos, de Kelsang Giatso: Tradução de Kelsang Pälsang, 2004 - Ed. Tharpa Brasil)