segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Endredons guardados, dores dobradas

Lidar com a dor é como dobrar um endredon, você vai dobrando, ajeitando, até virar um rolinho que caiba na gaveta. Depois que você aprende a dobrar uma vez tudo fica mais fácil. Um dia você esquece do endredon na gaveta, até que ele não serve mais para nada.

O meu endredon já cabe na gaveta, embora, por vezes, a porta do armário ainda abra.
 
Se eu sentir frio? Melhor pegar um cobertor quentinho. Um dia de sol, um novo amor, uma gargalhada em famíia, uma música doce. E assim vamos nos cobrindo, até o próximo verão.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Felicidade clandestina é... dietinha mental

A felicidade é um produto legalizado. É como álcool, cigarro. É bom, em doses adequadas. Causa medo porque vicia. Foi assim que meu irmão mais novo desbancou meu ideal de legalização de felicidade clandestina.

Já Buda é mais direto, felicidade é controle da mente. Essa mente que, como um adolescente obeso, adora se fartar de porcarias, prejudicando sua saúde. Uma dieta de bons pensamentos e ações é o que nos mantém saudáveis e felizes.

De um modo ou de outro, sigo meu mantra, só por hoje vou ser feliz. Mas confesso, que tem dia que não rola. Devoro tudo o que vejo pela frente com minha mente esfomeada e compulsiva. Depois ainda quero a iluminção, tão hipócrita quanto adoçante no café depois da feijoada.

Mente gorda!! Feio, muito feio.

Para ficar felizinha, da vizinha da Bolsinha...


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A cega

O tiquetitar parecia um relógio descompassado. Mas era a bengala de uma cega. Ela atravessava a rua levada pelo braço por um carteiro.  Um ponteiro vacilante, no escuro, tateava caminhos, pelas últimas horas do ano. Terminava o dia 31 de dezembro.

 Meu estômago gelou, enquanto as mãos suavam ao volante, aguardando o semáforo abrir. 

O carteiro a deixou no ponto de ônibus e se despediu. Como uma entrega, sem remetente ou destinatário. O homem seguiu e a cega manteve diálogo solitário. Como saberia qual ônibus tomar? Não se cansava de balbuciar frases. Onde iria aquela hora em total escuridão? E o maldito farol se demorava em mudar.

Quando o semáforo abriu, acelerei. Fugi. Sem coragem de encarar o retrovisor. Onde eu iria em minha total escuridão? Durante a queima de fogos naquela noite, experimentei fechar os olhos. Pois era assim que a cega me mostrou ser.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Zécutiva: Aprimoramento profissional é fundamental

Estava em dúvida em qual área de conhecimento me aprofundar esse ano. Depois de muito refletir, troquei o curso de gestão de pessoas pelo curso de palhaço numa academia de circo. Por que definitivamente não existe melhor habilidade do que levar a vida com humor, mesmo quando a equipe insiste em bombardeios de tortas de falta de comprometimento.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Uma família recém-renascida

O ano ainda não tinha nascido, mas já se prenunciava com uma primavera de nascimentos. Vó, vô, bisavó, tio, tia, pai e mãe brotaram com a notícia de que a família vai aumentar. E todos ganharam novos papéis, numa frenética atribuição de sonhos e responsabilidades. Eu, filha, irmã e titia. E o menino que brigava para não vestir uniforme do colégio, despejava o almoço indesejado pela janela e trucidava minhas bonecas virou pai.

Recém-renascidos, agora nós ensaiamos e esperamos como quem aguarda um novo dia de sol a iluminar todos os cantos das nossas almas.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Dedicatórias e um milheiro de tsurus

Para 2010, as dedicatórias, baseadas numa prece budista kadampa:

Pelas virtudes que coletei
Praticando as etapas do caminho,
Que todos os seres vivos tenham a oportunidade
De praticar da mesma forma.

Que cada um experiencie
A felicidade de humanos e deuses
E rapidamente alcance a iluminação,
Para que o samsara seja finalmente extinto.

Estas preces foram compiladas de fontes tradicionais pelo Venerable Geshe Kelsang Gyatso.


Segundo uma lenda oriental, ao dobrar 1000 tsurus com a mente focada em um desejo, ele se realiza. Para 2011, ainda que não dobremos mil tsurus, que nossa mente se foque em desejos auspiciosos.


Dobrei alguns tsurus em 2010, e foi tão bom.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Escrita de primeiros socorros

Escrever começa como sobrevivência. Sem teorias, a cura é poesia. É a válvula que precede o escape. A salvo o autor, a escrita está livre para a literatura.

Quase me sinto autora. Em processo de alta da paciente.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um amor que empinou em lírica

Uma franja flutuante dançou no ar. Delicadamente, estendeu-se riscando a paisagem na janela. Ela identificou uma longa rabiola. Aproximou-se e esticou a mão para tocá-la. Mas por instantes, parou. A rabiola era poética. Pessoa, Bandeira, Vinícius em tiras de páginas de livros desfigurados.

Puxou o longo rabo de palavras que não completavam versos. Mas como um ponto final mal colocado, a linha rebentou. E ficou anônimo o autor revestia a pipa que jazeu enroscada no telhado.

Correu para rua embolando nas mãos a lírica despedaçada. E o rapaz, que preparava para decolar outro exemplar literário na calçada em frente, arregalou os olhos. As palavras, que se amontoavam nas mãos, sufocavam no coração acelerado. A imagem de livros dilacerados congelava a alma dela.

De onde você matou essas páginas, ela balbuciou. Encontrei no lixo, e apontou uma mochila cheia de livros velhos de capa dura. Ela tentou retrucar a frase, mas ele emendou em seguida, não leio, então coloco palavra para voar, que elas encontrem melhor destino que um livro sem gente para admirar.

Em troca dos livros, ela o ensinou ler. E a parceria, rendeu produção literária. As obras são o mais velho Manuel, por Bandeira, o menino do meio Fernando, por Pessoa e aguardam a pequena Clarice, que apesar de não ser poeta, é autora que dispensa apresentação.

Este conto é uma pequena reverência à minha xará Fina Flor que nos presenteou com uma imagem linda de seus sonhos em seu blog. Juju, obrigada e desculpe o aproveitamento onírico. Seu sonho me perseguiu e foi o melhor que pude fazer para me livrar dele.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Endividados até o próximo Natal

Minha família é católica. Mas desde que me tornei budista, eles adotaram o Cred Carma como parâmetro para gastos de méritos. Um palavrão, 10 pontos descontados no cartão, mau humor, 100 pontos, maledicência, 500 pontos a serem diminuídos da milhagem com destino à iluminação. Já virou praxe um controlar os gastos do outro.

Nesse Natal, tivemos a alegria de esbanjar méritos. Uma família de sangue espanhol, com pitadas de italiano e português, consegue estourar o crédito iluminado rapidamente à beira de uma mesa regada à bebida. Torramos em piadas, bobagens, tirações de sarro e muitos palavrões, que a boca suja é fator genético.

Mesmo indo à banca rota pelo mau comportamento, fomos presenteados com uma alegria eufórica pelo simples fato de estarmos juntos. E há muito não sentia esse prazer coletivo entre as pessoas que mais amo. Nosso último Natal, foi extrema miséria de bem-estar. E acredito que fomos inundados também pelo sentimento de vitória por dificuldades superadas.

Agradeço ao administrador de nosso cartão de crédito, seja ele quem for, trocamos os pontos acumulados pelo melhor brinde do mundo, o amor.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Desejo de Natal

PRECE LIBERTADORA

Ó Abençoado, Shakyamuni Buda,
Precioso tesouro de compaixão,
Concessor de suprema paz interior,
Tu, que amas todos os seres sem exceção,
És fonte de bondade e felicidade,
E nos guia ao caminho libertador.
Teu corpo é uma jóia-dos-desejos,
Tua fala é um néctar purificador e supremo
E tua mente, refúgio para todos os seres vivos.
Com as mãos postas, me volto para ti,
Amigo supremo e estável,
E peço do fundo do meu coração:
Por favor, concede-me a luz tua sabedoria
Para dissipar a escuridão da minha mente
E curar o meu continuum mental.
Por favor, me nutre com tua bondade,
Para que eu possa, por minha vez, nutrir todos os seres
Com um incessante banquete de deleite.
Por meio de tua compassiva intençao,
De tuas bençãos e feitos virtuosos
E por meu forte desejo de confiar em ti,
Que todo o sofrimento rapidamente cesse,
Que toda a felicidade e alegria aconteçam
E que o santo Darma floresça para sempre.


Esta prece foi composta por Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche. é recitada regularmente no início das sadanas nos centros budistas kadampa de todo o mundo." - (Extraído do Livro: Como Solucionar Nossos Problemas Humanos, de Kelsang Giatso: Tradução de Kelsang Pälsang, 2004 - Ed. Tharpa Brasil)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Psicologia, tipo assim Salão do Automóvel

- Se tudo está um caos, liga no piloto automático - ele sugeriu.
- Mas não dá, não dá. Sou modelo antigo, não tenho sequer direção hidráulica - eu desesperei.
Pelo menos a gente se esforça para manter um bom air bag e a lataria.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Zécutiva: Overbooking de pernil

Vender mais do que se pode entregar virou praxe, até mesmo em empresas Sadias. E o Natal do pessoal, arriscando ser mais magro que lanchinho de avião.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Desbussolada

Eu sei aonde ir. Tenho todos os mapas e o GPS. Mas me confundo ao seguir indicações. Perco as entradas, erro as ruas, excedo o limite de velocidade, faço todo tipo de absurdo.

Perdida. Embora conheça a trajetória. Os lugares já não deveriam parecer tão assustadores. As passagens tão estreitas. E eu tão só, a esperar por estranhos a me orientar pelo caminho.

TPM: tendência à pandismo