Quando morre alguém querido ou significativo ao mundo, listo de imediato um possível obituário de pessoas que deveriam substituir ou compensar a perda. Um rol de vasos ruins - canalhas, políticos, assassinos, ladrões e toda gente do mal próxima ou distante-, que, na minha cruel vaidade, deveriam estar a sete palmos adubando a terra.
O último que mereceu meu obituário foi José Saramago. Comentei para algumas pessoas que ele deveria ter cedido a vez para fulano e sicrano. Ganhei o troféu capeta em forma de mocinha. Tentaram me convencer a abandonar esse pensamento soturno, pois só demonstra que eu sou infeliz. Achava que só demonstrava o que eu penso.
Juro que não desejo a morte de ninguém, só penso que a fila deveria ser melhor organizada por alguém mais criterioso, mesmo que a próxima deva ser eu. Daí me vi sozinha nessa. Só eu penso isso? Só eu declaro minha raiva?
Uma amiga me sugeriu uma caixa do grito. Uma caixa de sapatos, cheia de jornal dentro, com um rolo daqueles de papel de cozinha para fora. Daí você grita dentro, até passar a raiva. Vou usar logo uma caixa de geladeira e, provavelmente, vou ficar afônica uns dois meses. Pois do jeito que vai, logo vou abraçar o capeta e dançar rebolation.