Minha monja budista falou que todos temos potencial. Buda acreditava em gente como a gente. Vai entender, mas o cara botava fé que nós, malucos, neuróticos, depressivos e variações, podemos atingir a iluminação.
Tento confiar na minha capacidade, mas confesso que, até então, me sinto uma monga. Agarrada às minhas delusões, apegos e me sentindo a casca do pão de forma, que ninguém quer e sempre mofa no fundo do pacote.
As meditações são como se as ondas revoltas dos meus pensamentos se acalmassem. Mas somente guiada consigo dominar a maré. Depois reinicia a ressaca que transborda em muitas lágrimas e palavras indesejáveis.
Sempre convivi com esse maremoto contínuo de pensar. Mas tornou-se incontrolável depois que tudo horrível aconteceu. Antes era um maremoto de ânsia de viver, agora um revolver de águas profundas e negras de tristeza e abandono.
Mergulho profundamente nessas águas procurando uma corrente que ajude a aceitar com paciência tanto sofrer que resvalou em tantas pessoas que amo.
Pare de se perguntar por que. Ouvi tantas vezes isso. Externamente parei. Mas busco refúgio numa explicação espiritual, cármica. Por que não entendo como meu amor resiste ainda a tantos golpes.
Aplaquei o ódio, mas até me arrependo, os deuses que perdoem. O ódio me preenchia, me movia, me fazia respirar. Sem ele, parece que a tampa de um buraco profundo, bem no meio do peito, foi arrancada. E esse buraco lateja de ausência, saudades, melancolia, inveja.
É horrível, sou horrível. Aceitar e ser constante, são meus mantras para a felicidade. Espero que Buda não tenha dançado na aposta.