domingo, 21 de setembro de 2014

Em ponto cruz, bordei colorido nessa tristeza que hoje só me faz cansar. Desenhei os nomes de todos que amo e não posso amparar. Esse pano de limpar sofrimento, lancei pela janela para que flanasse no alto de nossas cabeças.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Portando a vergonha alheia

Você parece ter o número de senha 10.000.345.567 e a fila não sai da senha 23. O pai e a filha adolescente sentam do seu lado na loja de celular. Assunto vai, assunto vem, o pai resolve descrever os canais de sexo que ele assina na sua TV a cabo. Por que? Por que?

Sinto as minhas bochechas queimarem! E tenho a certeza que o bom senso da humanidade pediu portabilidade para outro planeta.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sociedade de pessoas mortas

O suicídio de pessoas de tanto talento sempre me faz dar dois passos para trás para refletir em perspectiva os estreitos caminhos que beiram os nossos abismos pessoais. Espreitar o profundo poço de cada um de nós é encarar a fragilidade de quem se equilibra no fio do cotidiano.

Adeus, Robin Williams! Encontre a paz.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Para vidas de pastel de vento

Nos últimos meses, eu me pego reclamando mais que o usual. Tendo insônias mais que o suportável. E me zangando desavergonhadamente comigo e com todo o mundo. Em algum momento, deixei escapar a válvula que controla essas sensações perturbadoras, a raiva, a ansiedade, o medo - as delusões como os budistas preferem chamar. 

Não é fácil apontar quando esse maremoto de resmungos tomou conta do laguinho das minhas emoções. Mas o fato é que é preciso esforço grande para aquietar as ondas que perturbam qualquer possibilidade de clareza mental. 


O emissário de esgoto mental uma vez aberto contamina outros pensamentos e ações. São pequenas violências de corpo, fala e mente repetidas à exaustão para ferir os outros e, principalmente, ferir a mim mesma. Tudo parece pior do que realmente é, as palavras são mais irônicas e insidiosas do que deveriam e me coloco em situações que só aumentam minha inquietação.



É tudo uma questão de familiaridade. E a nossa sociedade nos familiariza com a eterna insatisfação através de padrões de vida e consumo exigentes, relacionamentos superficiais e efêmeros em que as soluções de conflitos em geral são violentas.

E não tem chocolate, roupa, viagem, Tinder, TV a cabo com 100 canais, balada que fechem esse enorme buraco cavado pelo egoísmo: eu quero, eu preciso, eu sofro, eu estou farta, eu não aguento mais. OK, falo por mim! A dona dessa vida de pastel de vento, que murcha quando qualquer pedaço é tirado do lugar.

Em um dos textos do seu blog, a Monja Cohen faz um questionamento. "Será que estamos conscientemente vivendo nossas vidas e direcionando nossos pensamentos, ações e palavras para o sentido de mudança que queremos e sonhamos? Mahatma Gandhi disse: "Temos de ser a transformação que queremos no mundo"".

Definitivamente, eu tenho direcionado minha mente e meu mundo para um cenário obscuro. As justificativas são o stress, muito trabalho, a última separação, estudar para prova de derivativos, a Copa do mundo, a auditoria na empresa. Sobram desculpas, não resta nenhuma atitude, aparecem as consequências. Uma vida insuportavelmente chata. Duro admitir.

O que realmente funciona para mudar isso? Talvez olhar mais para dentro. Estar mais no presente. Ser menos ansiosa com o que vai acontecer, não sofrer com o que aconteceu. E principalmente ser mais generosa, grata e compassiva, comigo e com o mundo.
"Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Transcender corpo e mente seu e dos outros. Nenhum traço de iluminação permanece e a Iluminação é colocada à disposição de todos os seres." (Mestre Zen Eihei Dogen - 1200-1253). Que eu possa esquecer um pouco de mim mesma, e me deixar iluminar por esse mundo bonito que me rodeia.

Texto da Monja Cohen: aqui


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Audições de vô Acácio

Saudade é quando a gente não sabe se lembra ou se inventa. E é com saudades que lembro que foram em sábados compridos ou dias de férias ensolaradas que eu aprendi a me apaixonar pelo samba. Eu e meu avô sentados nas cadeiras de praia espalhadas na varanda da chácara.  Vendo o sol se alaranjar no poente, ouvindo Jair Rodrigues cantando samba canção. 

Num desses dias, também comecei a sofrer com o samba. O telefone interrompeu a audiência de serestas com a notícia que meu tio-avô morreu. Depois disso, naquela tarde, não teve piada, meu avô não contou história repetida, não deu risada, não me puxou os pêlos do braço chamando de neta de um burro. 

Com os olhinhos cheios d´água é que meu avô acabou de ouvir a fita cassete do Jair, no radinho Panasonic. Relembrou uma ou duas histórias do irmão recém-falecido e foi se deitar mais cedo em quietude enlutada. Foi novidade assustadora para mim. Ainda bem criança, assisti ali paralisada nascer uma saudade daquelas mais doloridas que só a morte consegue criar.

E assim como a saudade inventa essas tardes, inventa outras nostalgias bonitas, quando escuto  Jair Rodrigues, Cartola, Nelson Cavaquinho e tantos outros sambistas. É tanta coisa que a saudade inventa, enfeita, mistura da vida da gente - amigos, gente que se foi, momentos, amores, alegrias - que chego não me importar que doa tanto. 

Para sentir saudade é preciso ter coragem. Para ouvir um samba é preciso lembrar de você meu avô que me ensinou essas enormes saudades que eu sinto hoje.


Para vô Acácio, essa música que fala de um cara incrível como ele. Mais que sua neta, eu para sempre vou ficar sua fã:

Naquela mesa
Sergio Bittencourt

Naquela mesa ele sentava sempre 
E me dizia sempre o que é viver melhor 
Naquela mesa ele contava histórias 
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor 
Naquela mesa ele juntava gente 
E contava contente o que fez de manhã 
E nos seus olhos era tanto brilho 
Que mais que seu filho 
Eu fiquei seu fã 
Eu não sabia que doía tanto 
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim 
Se eu soubesse o quanto dói a vida 
Essa dor tão doída, não doía assim 
Agora resta uma mesa na sala 
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim 
Naquela mesa ta faltando ele 
E a saudade dele ta doendo em mim 
Naquela mesa ta faltando ele 

E a saudade dele ta doendo em mim 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Aula de artes

Soucacosencaixados

Mosaicodefelicidade

O que não

encaixa      des  

                   car           

                      t  o  

domingo, 29 de junho de 2014

Insinuação

“Há situações, é claro, que te deixam absolutamente sem palavras. Tudo o que você pode fazer é insinuar. As palavras, também, não podem fazer mais do que apenas evocar as coisas. É aí que vem a dança.” 

Pina Bausch

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Tanto quanto

Você corre tanto e nunca tem tempo. Fala tanto o que pensa e se sente idiota. Faz tanta dieta e não entra na calça. Sente tanta saudade mas não telefona. Pensa tantas coisas que não realiza. Gosta tanto mas não demonstra. Coleciona tantas receitas mas não cozinha. É tanta coisa que a vida fica um tanto pequena.


Tanto querer é ser feliz quanto? 


Tanto quanto ser feliz é querer menos.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Por menos memória

"No meu pla­neta natal não há muito a dizer, a memó­ria é coisa curta, a con­versa directa ao assunto e, tal­vez por isso, os habi­tan­tes andam quase sem­pre sor­ri­den­tes e pouco zan­ga­dos. Nada, ou quase nada, lhes lem­bra tris­teza por­que não se lem­bram de quase nada; e por­que não dei­xam que as pou­cas pala­vras que usam (por sabe­rem pou­cas) lhes enre­dem os pen­sa­men­tos em para­do­xos e con­tra­di­ções; a maior parte deles, dos pen­sa­men­tos, não são gran­des e sole­nes, como os dos super-homens e mulhe­res daqui, são antes peque­ni­nos pen­sa­men­tos e por isso pen­sa­men­tos muito livres e feli­zes.
Mas a grande dife­rença entre este pla­neta e o meu pla­neta natal é a memó­ria. Os habi­tan­tes do meu pla­neta natal têm pouca memó­ria. Quiçá por serem menos pro­li­xos, por terem menos léxico, no meu pla­neta natal cita-se pouco. A memó­ria, coisa a que nada escapa, é outro dos super­po­de­res deste pla­neta. No meu há menos memó­ria, inventa-se mais. Inventam-se vidas, his­tó­rias, pas­sa­dos. É um pla­neta onde não há His­tó­ria, só há fic­ção. Todos os dias a His­tó­ria é dife­rente, rein­ven­tada".


Do Escrever é triste de Rakan Ben Zolof 25, codinome Pedro Bidarra

domingo, 15 de junho de 2014

A sós

Preciso de tempos em tempos ficar só. Não proferir palavra para ouvir minha voz. Não me olhar no espelho para saber como sou. Não tentar ser nada para sentir quem sou. Não buscar e achar. Não olhar e enxergar. E me segurar para não gritar: meu deus, eu sou uma fraude.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Era tão bonito andar na cidade de São-Pau-lo

A tênue linha que separa o caos do caos às vezes entorta. Minha pobre São Paulo. Nunca pensei que um dia quisesse te deixar. Mas seus cidadãos deram lugar à uma horda de sobreviventes.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Guarda-sonhos



Como aquele guarda chuva lindo que você investe e jura que vai tomar cuidado, assim são os sonhos. Eles simplesmente se perdem.

Reforçados ou sombrinhas chinesas  adquiridas aos montes, guarda chuvas e sonhos devem ter uma realidade própria onde convivem, depois que desaparecem, juntamente com os isqueiros. 

Você até tenta sobreviver um bom tempo sem eles. Mas acaba vencido pelas tempestades.  Sobra sempre aquele guarda chuva estropiado, todo remendado. É ele quem vai te abrigar. Por que guarda chuva e sonho é que te escolhem. Ou você aprende a gostar da chuva*.

* Linda observação da Lu que anda sempre com Borboletas nos Olhos

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Salva vida

Estava se afogando nas palavras, quando finalmente uma frase a puxou pelo braço. Do fundo do seu silêncio, aspirou o vento gelado de uma folha branca.

Agarrou-se em exclamações e travessões, evitando as interrogações que afundavam. Flutuou até a orla de tudo o que não havia dito.

Largou-se sob o sol quente de parágrafos ordenados. Vomitou todas aquelas palavras que lhe sufocavam.

Sobrevive, sem a ajuda de ansiolíticos. Passa bem, ela acredita que um dia ainda vai acreditar nisso.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

37 razões

São 37 motivos de desamor, listados num papel amarrotado, em caligrafia triste de caneta azul.

Revisados para que nenhuma de suas falhas perdoasse a minha saudade.

De cor, ação para te tirar do coração. Por que desamor é engenharia, enquanto amor é decoração.

Quase 4 dezenas de razões para me esquecer que não precisei de um motivo sequer para um dia amar você.