quarta-feira, 23 de julho de 2014

Aula de artes

Soucacosencaixados

Mosaicodefelicidade

O que não

encaixa      des  

                   car           

                      t  o  

domingo, 29 de junho de 2014

Insinuação

“Há situações, é claro, que te deixam absolutamente sem palavras. Tudo o que você pode fazer é insinuar. As palavras, também, não podem fazer mais do que apenas evocar as coisas. É aí que vem a dança.” 

Pina Bausch

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Tanto quanto

Você corre tanto e nunca tem tempo. Fala tanto o que pensa e se sente idiota. Faz tanta dieta e não entra na calça. Sente tanta saudade mas não telefona. Pensa tantas coisas que não realiza. Gosta tanto mas não demonstra. Coleciona tantas receitas mas não cozinha. É tanta coisa que a vida fica um tanto pequena.


Tanto querer é ser feliz quanto? 


Tanto quanto ser feliz é querer menos.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Por menos memória

"No meu pla­neta natal não há muito a dizer, a memó­ria é coisa curta, a con­versa directa ao assunto e, tal­vez por isso, os habi­tan­tes andam quase sem­pre sor­ri­den­tes e pouco zan­ga­dos. Nada, ou quase nada, lhes lem­bra tris­teza por­que não se lem­bram de quase nada; e por­que não dei­xam que as pou­cas pala­vras que usam (por sabe­rem pou­cas) lhes enre­dem os pen­sa­men­tos em para­do­xos e con­tra­di­ções; a maior parte deles, dos pen­sa­men­tos, não são gran­des e sole­nes, como os dos super-homens e mulhe­res daqui, são antes peque­ni­nos pen­sa­men­tos e por isso pen­sa­men­tos muito livres e feli­zes.
Mas a grande dife­rença entre este pla­neta e o meu pla­neta natal é a memó­ria. Os habi­tan­tes do meu pla­neta natal têm pouca memó­ria. Quiçá por serem menos pro­li­xos, por terem menos léxico, no meu pla­neta natal cita-se pouco. A memó­ria, coisa a que nada escapa, é outro dos super­po­de­res deste pla­neta. No meu há menos memó­ria, inventa-se mais. Inventam-se vidas, his­tó­rias, pas­sa­dos. É um pla­neta onde não há His­tó­ria, só há fic­ção. Todos os dias a His­tó­ria é dife­rente, rein­ven­tada".


Do Escrever é triste de Rakan Ben Zolof 25, codinome Pedro Bidarra

domingo, 15 de junho de 2014

A sós

Preciso de tempos em tempos ficar só. Não proferir palavra para ouvir minha voz. Não me olhar no espelho para saber como sou. Não tentar ser nada para sentir quem sou. Não buscar e achar. Não olhar e enxergar. E me segurar para não gritar: meu deus, eu sou uma fraude.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Era tão bonito andar na cidade de São-Pau-lo

A tênue linha que separa o caos do caos às vezes entorta. Minha pobre São Paulo. Nunca pensei que um dia quisesse te deixar. Mas seus cidadãos deram lugar à uma horda de sobreviventes.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Guarda-sonhos



Como aquele guarda chuva lindo que você investe e jura que vai tomar cuidado, assim são os sonhos. Eles simplesmente se perdem.

Reforçados ou sombrinhas chinesas  adquiridas aos montes, guarda chuvas e sonhos devem ter uma realidade própria onde convivem, depois que desaparecem, juntamente com os isqueiros. 

Você até tenta sobreviver um bom tempo sem eles. Mas acaba vencido pelas tempestades.  Sobra sempre aquele guarda chuva estropiado, todo remendado. É ele quem vai te abrigar. Por que guarda chuva e sonho é que te escolhem. Ou você aprende a gostar da chuva*.

* Linda observação da Lu que anda sempre com Borboletas nos Olhos

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Salva vida

Estava se afogando nas palavras, quando finalmente uma frase a puxou pelo braço. Do fundo do seu silêncio, aspirou o vento gelado de uma folha branca.

Agarrou-se em exclamações e travessões, evitando as interrogações que afundavam. Flutuou até a orla de tudo o que não havia dito.

Largou-se sob o sol quente de parágrafos ordenados. Vomitou todas aquelas palavras que lhe sufocavam.

Sobrevive, sem a ajuda de ansiolíticos. Passa bem, ela acredita que um dia ainda vai acreditar nisso.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

37 razões

São 37 motivos de desamor, listados num papel amarrotado, em caligrafia triste de caneta azul.

Revisados para que nenhuma de suas falhas perdoasse a minha saudade.

De cor, ação para te tirar do coração. Por que desamor é engenharia, enquanto amor é decoração.

Quase 4 dezenas de razões para me esquecer que não precisei de um motivo sequer para um dia amar você.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Píramo e Tisbe

- Não, não tenho nenhuma sorte nesse negócio de amor.

- E eu, tenho o dedo tão podre para relacionamentos, que não adianta lavar, tem que arrancar mesmo - rebati.

Imediatamente, uma muralha de medos e frustrações cresceu sobre a mesa, segregando qualquer chance de felicidade. Cada um do seu lado, sorvendo golinhos de chocolate quente polvilhado de cinismo bem humorado.

Silêncios prolongados num fim de domingo gelado.

E as amoreiras não se tingiram de vermelho.

terça-feira, 27 de maio de 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Plural de lágrimas: Mil-agri-mas

há sim uma certa melancolia ao constatar 
que do capim verde e cheiroso de outrora
não se poderá mais provar,
mas não se há de negar a contrapartida
com que, de certa forma, nos compensa a vida
se o capim de hoje não é tão verde 
nem seu cheiro tão vigoroso,
não é menos valoroso, 
de meu paladar, mudaram as diretrizes
e em meu capim, que só me oferecia a verdura, 
com essa nova estrutura, 
encontro novas matizes.


Grã

Esse texto lindo é meu por que ganhei de presente! E presente, a gente nunca diz que não precisava. Pega logo e sai rasgando o papel. Por que ganhar presente é melhor coisa que existe, ainda mais cheio de palavra bonita.

Muito obrigada! Diretamente de o mundo de Grã.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Curral de lágrimas

Como um boi velho, cansado,

pacientemente a remoer,

que o capim verde, que come,

torna outra vez a comer,

hoje, velho, relembrando

minha alegre juventude,

tudo quanto já fruí,

como o boi, vou ruminando

o meu Passado saudoso,

que foi, em tempo ditoso,

o capim "verde" e cheiroso,

que quando moço, eu comi!

Mas, às vezes, a Saudade

acorda-me a Mocidade

com tanta exasperação,

que eu abro as duas porteiras

dos olhos, meu bom patrão,

e deixo que, atropelada,

saia, só numa arrancada,

toda a boiada das lágrimas

do curral do coração."

(Catulo da Paixão Cearense)