"Eu estou feliz porque eu também Sou da sua companhia Eu estou vestida com as roupas E as armas de jorge Para que meus inimigos tenham pés E não me alcancem Para que meus inimigos tenham mãos E não me toquem Para que meus inimigos tenham olhos E não me vejam E nem mesmo um pensamento Eles possam ter para me fazerem mal Porque eu estou vestida com as roupas E as armas de Jorge Salve Jorge"
Hum, sentindo saudades de sentir amor. Aquele amor redondinho, cheio e bem branquinho. Cheirando a novo, ainda no plástico.
Alguém devia ter a idéia de vender no mercado, numa bandejinha. A gente leva o quanto suportar consumir. Na etiqueta, as advertências sobre os efeitos colaterais. E quando vencer a validade, coloca para reciclar, ou compra um novo.
P.S.: Isso que dá ler os bilhetinhos de namorinho que começa.
Para nascer de novo, a gente tem que ser criança. E nos últimos dias, tenho me sentido assim... tão menininha.
"Valsa para uma menininha", lembro de mim, garotinha, ouvindo essa música, olhando o disco rodar na vitrola de luz azul.
"Menininha do meu coração, eu só quero você, a três palmos do chão". Sempre me chocava esse trecho. Achava que era prefirível que ela fosse enterrada numa cova rasa, a crescer. O mundo devia ser mesmo muito ruim.
Hoje, estou a um pouco mais de três palmos do chão. Já sofri de repente a minha desilusão. E luto contra os meus bichos papões.
Alguém chama a Super Nanny?
Valsa para uma menininha
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho
Menininha do meu coração Eu só quero você A três palmos do chão Menininha, não cresça mais não Fique pequenininha na minha canção Senhorinha levada Batendo palminha Fingindo assustada Do bicho-papão
Menininha, que graça é você Uma coisinha assim Começando a viver Fique assim, meu amor Sem crescer Porque o mundo é ruim, é ruim E você vai sofrer de repente Uma desilusão Porque a vida é somente Teu bicho-papão
Fique assim, fique assim Sempre assim E se lembre de mim Pelas coisas que eu dei E também não se esqueça de mim Quando você souber enfim De tudo o que eu amei
No intervalo da aula, pulava o muro da escola e atravessava a rua até o clube atlético para ver os meninos na aula de natação. Uma aventura que repetia todas as terças-feiras. Ansiava por aquele momento, com um frio na barriga que explodia quando o sinal tocava.
Ofegante, observava corpos quase tão infantis quanto o meu. Músculos ristes, em posição, um mergulho profundo. Braçadas duras, pernas em movimento. Uma sensação inquietante dominava o meu corpo.
Suada, corria de volta à aula e afogava meu iniciante desejo. A semana seguia. Voltava à amarelinha, mãe-da-rua e pique-esconde. Mas na terça-feira, o frio na barriga retornava.
Foram muitas travessias entre o muro e a minha infância. Sinto o cheiro de cloro, o barulho na água e o sinal da aula me alertando. Hoje, percorro a lembrança e não encontro o caminho de volta.
Obs.: Esse é o resultado de uma oficina literária que um querido amigo me levou, há algum tempo atrás. Aceito as críticas, como boa escritora iniciante.
- Meu pai, não corte a ameixeira! Meu corpo magro se interpunha entre a árvore enorme e um machado escuro. Ele me olhou ressabiado. Não disse palavra. Abaixou o cabo e saiu ruminando.
Naqueles poucos segundos, uma enorme distância ficou clara entre nós. Ele um homem prático, duro. Eu, apegado à mãe, livros, fantasias. Não me senti vitorioso ao deter o machado de meu pai.
No dia seguinte, quando voltei da escola, a árvore jazia. Espiei meu pai que esboçou um sorriso de vergonha. Valente, a ameixeira tombara mas derrubara o muro.
Obs.: Esse é o resultado de uma oficina literária que um querido amigo me levou, há algum tempo atrás. Aceito as críticas, como boa escritora iniciante.
Dirigir com dignidade meu bat-móvel (batido em todos os lados de sua lataria personalizada). E me divertir com as caretas de desespero sufocado da ala masculina ao presenciar minhas manobras infantis na garagem, coladinha às charangas lustrosas dos colegas.