quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pelo muro da escola

No intervalo da aula, pulava o muro da escola e atravessava a rua até o clube atlético para ver os meninos na aula de natação. Uma aventura que repetia todas as terças-feiras. Ansiava por aquele momento, com um frio na barriga que explodia quando o sinal tocava.


Ofegante, observava corpos quase tão infantis quanto o meu. Músculos ristes, em posição, um mergulho profundo. Braçadas duras, pernas em movimento. Uma sensação inquietante dominava o meu corpo.


Suada, corria de volta à aula e afogava meu iniciante desejo. A semana seguia. Voltava à amarelinha, mãe-da-rua e pique-esconde. Mas na terça-feira, o frio na barriga retornava.


Foram muitas travessias entre o muro e a minha infância. Sinto o cheiro de cloro, o barulho na água e o sinal da aula me alertando. Hoje, percorro a lembrança e não encontro o caminho de volta.



Obs.: Esse é o resultado de uma oficina literária que um querido amigo me levou, há algum tempo atrás. Aceito as críticas, como boa escritora iniciante.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ameixeira e o muro

- Meu pai, não corte a ameixeira!
Meu corpo magro se interpunha entre a árvore enorme e um machado escuro. Ele me olhou ressabiado. Não disse palavra. Abaixou o cabo e saiu ruminando.

Naqueles poucos segundos, uma enorme distância ficou clara entre nós. Ele um homem prático, duro. Eu, apegado à mãe, livros, fantasias. Não me senti vitorioso ao deter o machado de meu pai.

No dia seguinte, quando voltei da escola, a árvore jazia. Espiei meu pai que esboçou um sorriso de vergonha. Valente, a ameixeira tombara mas derrubara o muro.

Obs.: Esse é o resultado de uma oficina literária que um querido amigo me levou, há algum tempo atrás. Aceito as críticas, como boa escritora iniciante.

Felicidade clandestina é... mulher no volante

Dirigir com dignidade meu bat-móvel (batido em todos os lados de sua lataria personalizada). E me divertir com as caretas de desespero sufocado da ala masculina ao presenciar minhas manobras infantis na garagem, coladinha às charangas lustrosas dos colegas. 

terça-feira, 6 de abril de 2010

Terapia de mocinha: Se não se pode vencê-los...

... dê risada deles. Porque a felicidade é uma passageira clandestina. Você tem que legalizá-la. Depois, convide-a a sentar e acenar na janelinha.

Obs.: Felicidade clandestina, licença querida Clarice Lispector.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Observações de uma segunda chuvosa....

Devíamos nascer com uma tarja:

"O Ministério da Saúde adverte: viver é prejudicial à saúde".

Está certo, concordo que é uma delícia, mas poupem-nos das segundas-feiras.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Carta ao filho que eu quero ter

Meu filho, você nem nasceu, mas a mamãe já sente saudades. Uma saudade mais apertada porque nosso encontro ficou mais distante no tempo. A nossa vida mudou. E a gente vai ter que esperar mais um pouquinho para se encontrar. Espero que tenha paciência, assim como eu venho aprendendo a ter.

Perdoe-me se errei nos planos, nos cálculos. A vida é muito louca e inexplicável.

Saiba que venho esperando você há tempos, me preparando e imaginando cada minuto nosso juntos. Quero muito que você venha pela minha barriga, mas se for de outra também não me importa. Só quero poder te encontrar e dar todo amor que ainda nem sei que existe em mim.

Há meses, venho querendo lhe escrever para saciar essa vontade de te chamar, filho, e eu me chamar simplesmente mamãe.

Essa música, que adoro desde criança, é para você, meu amor.





O Filho Que Eu Quero Ter

Toquinho
Composição: Toquinho/ Vinicius de Moraes

É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem

De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer ter.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Terapia de mocinha: Nada melhor que um bom pano de chão

Recomendo os poderes terapêuticos de transformar as camisetas do seu ex pilantra em panos de chão. Aproveite cada instante ao passar a tesoura na dita cuja. Não use somente a tesoura e delicie-se com a sensação de rasgar o tecido com as mãos, fazendo barulhinho.

Chato é descobrir que a porcaria da camiseta não seca bem.

P.S.: Eu sei que é um conselho nada budista este (minha nova inspiração), que prega a não retaliação. Mas tudo bem, eu estou bem longe da iluminação ainda. E enquanto corto a camiseta, corto de mim todo o mal e rancor que se acumulam. Ai se a indústria do vestuário descobre essa terapia... 

Feliz!!

Hoje falei para minha mãe que estou me sentindo tão incrivelmente bem que chego a duvidar da minha sanidade mental. Ela disse são os remédios (bendita sertralina).

Mas acho que não só remédios. Sinto-me leve, de coração aberto. Há períodos que focamos tanto em um objetivo que nos esquecemos simplesmente de viver. E quando essa luta insana não é compartilhada pelos seus companheiros de batalha, o desafio torna-se um fardo.

OK, tudo o que sinto pode mudar daqui meia hora. Afinal, sou bicho fêmea e estou na TPM. Mas é bom curtir instantes de leveza e até achar lindo o sol lá fora e esse calor senegalês aqui dentro.

domingo, 21 de março de 2010

Eu amei

Pequenos amores, que logo terminam, parecem os melhores pois têm o benefício da dúvida.

Exercícios mentais

Exercitamos a memória para o lembrar, mas eu treino a minha para o esquecer. Seleciono os fatos, e procuro picar sensações desagradáveis. São tempos de descarte.

Pretendo encaminhar todo o arquivo morto para incineração. Dessas cinzas, eu vou renascer.

quinta-feira, 18 de março de 2010

De olhos bem abertos

Ontem fui a uma aula revigorante de meditação, conheci uma pessoa genial, cheguei em casa e tinha mil flores preparada pela minha mãe. Minha casa estava cheirosa e eu chorei de alegria pela primeira vez na minha vida. Pela primeira vez comecei meu dia de aniversário em paz, em casa, tomando vinho e lendo um livro que parecia escrito para esse meu momento.

Às vezes vale a pena ficar sozinha, fazer o que quer, abrir bem os olhos e aceitar o mundo de peito aberto.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Nova força de venda

Aprendendo a viver sem o rótulo:

Esse produto não pode ser vendido separamente.

Pesquisando mercado para relançamento.

sexta-feira, 5 de março de 2010