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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A cura de ser grande

A mais linda cura é voltar à seriedade da infância. Posso ler esse poema centenas de vezes, e em todas essas meu coração vai apertar.


¨ORFANDADE¨

Adelia Prado

"Meu Deus,
me dê cinco anos.
Me dê um pé de fedegoso com formiga preta,
me dê um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dê a negrinha Fia pra eu brincar,
me dê uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dê minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande.
Ó meu Deus, meu pai,
meu pai..."

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Curral de lágrimas

Como um boi velho, cansado,

pacientemente a remoer,

que o capim verde, que come,

torna outra vez a comer,

hoje, velho, relembrando

minha alegre juventude,

tudo quanto já fruí,

como o boi, vou ruminando

o meu Passado saudoso,

que foi, em tempo ditoso,

o capim "verde" e cheiroso,

que quando moço, eu comi!

Mas, às vezes, a Saudade

acorda-me a Mocidade

com tanta exasperação,

que eu abro as duas porteiras

dos olhos, meu bom patrão,

e deixo que, atropelada,

saia, só numa arrancada,

toda a boiada das lágrimas

do curral do coração."

(Catulo da Paixão Cearense)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Corando

Aninha e suas pedras
Cora Coralina
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

domingo, 28 de outubro de 2012

Só os absurdos fazem poesia




A gente gostava das palavras quando elas perturbaravam o sentido normal das ideias.
Por que a gente também sabia que só os absurdos enriquecem a poesia.
Manoel de Barros

De Manoel

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Manoel de Barros

Com pedaços de mim apenas tento ser.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Confeitaria sentimental

"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice." 
Guimarães Rosa

Sou massa de saudades. Elas fermentam e transbordam disformes. Queimam nas bordas mas mantêm-se cruas por dentro.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Deus e o diabo no menu do jantar

Deus come quieto, mas o diabo lambe os beiços e os pratos, alertou Guimarães Rosa. E de empolgação, a gente acompanha o segundo. Come que se farta da vida. Por fim, contabilizamos o que dá para digerir, arrotamos o necessário e juramos nunca mais encarar a ressaca de não consumir a vida com moderação.

E torcemos para que, ao menos, no cafézinho, junte-se à mesa um anjo. De xícara em punho e mindinho em riste, ele se oferece para tirar os pratos e juntar as migalhas. Mas a prevenção dura até a próxima tentação. Por que Deus serve arroz integral com frango, enquanto o diabo prepara costelinhas no mel com pudim de sobremesa.

E só me repito: vai minha filha! Vai ser avestruz na vida, por que você não nasceu para dieta de passarinho.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Da sapiência do não saber

Eu não sei nada sobre as grandes coisas do mundo, mas sobre as pequenas eu sei menos.
Manoel de Barros

Quanto mais eu vivo, sinto o enlevo de não saber. Por que, quanto mais eu sei, pressinto o dissabor do que há de ser.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ponto final em eu te amo

Se querer amar é desejo de fazer as malas da própria alma, amar é eleger um destino final para viagem.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Para dias de idéias obsessivas

Foto tirada durante o Arte na Vila, ateliê de Eduardo Mello



"Vendo infelicidade em visões e opiniões, sem adotar nenhuma, encontrei paz interior e liberdade. Quem é livre não se agarra a visões nem discute opiniões. Para um sábio, não há superior, inferior nem igual; não há lugares em que a mente possa se fixar. Mas os que se prendem a visões e opiniões andam pelo mundo aborrecendo as pessoas".

Jack Kornfield (EUA, 1945 ~) “Depois do êxtase, lave a roupa suja”
Do lugarzinho onde venho coletando inspiraração http://samsara.blog.br/

sábado, 26 de março de 2011

Amar é fazer as malas da alma

"Amar é mudar a alma de casa", ensinou Mario Quintana. E que a Granero trabalhe mais na vida de todos nós. 

Fiquei emocionada ao receber o convite de casamento de casal amigo que espera um bebê. Fui invadida por um calorzinho de esperança e também saudades.

Querer amar é  desejo de fazer as malas da própria alma. Entretanto o amor é agência de viagens em alta temporada, não respeita itinerários e nem horários para alçar vôos.


"O amor não se tem na hora que se quer, ele vem no olhar
Sabe ser o melhor na vida e pede bis quando faz alguém feliz"
Marcelo Camelo



 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Felicidade clandestina é amigo novo e poesia antiga

Amigos recentes, restaurante novo e causos frescos. Mas uma rodada de declamação de poesia antiga é o melhor batizado para amizade que quer vingar. E a noite termina com chá servido com bulé acima da cabeça do garçom, ao som de Cartola. Um espetáculo para deixar no chinelo até os chás de Alice no seu País das Maravilhas.

E eu sempre me safo com Pessoa...

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Por Manoel pedaços de mim

"Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora".
Livro sobre o nada - Manoel de Barros


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Lituraturices: Questão

"Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der".

Carl Gustav Jung

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dias passarão, passarinhos

Um dia ou um passarinho por Juju


A vida é uma gaiola sem grades.
Aprecie o canto dos dias que voam,
pois certamente passarão urubus e passarinhos.


E essa frase me lembrou Mario Quintana:
POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Viver é piscar, morrer é só hipótese




"- A vida da gente, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela ultima vez e morre.

_ E depois que morre? – perguntou Visconde.

_ Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"

[Monteiro Lobato, excerto de Memórias da Emília (1936)]


Texto resgastado depois de uma visita emocionante à Praça das Palavras do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Vale a pena para rir, chorar e se colocar a pensar sobre as piscadas e hipóteses da vida.








quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para os dias de luto

A Ponte


Composição: Elton Medeiros/Paulo Cesar Pinheiro

Chora
Põe o coração na mesa
Chora
Tua secular tristeza
Tira o teu coração da lama
E chora
A dor santa e a dor profana
Que Deus proteje a quem chora
Por toda tristeza humana

O homem é sempre só
O fim é sempre pó
Ninguém foge do nó
Que um dia a vida faz
Por isso chora em paz
Que a lágrima que cai
É a ponte entre mais nada
E outra vida mais

(E Deus proteje a quem chora)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Outra pergunta importante

"Quando uma aranha tece uma bela teia, a beleza vem da própria natureza da aranha; é uma beleza instintiva. E quanto da beleza da nossa própria vida é a beleza de estar vivo e quanto é uma intenção consciente? Essa é uma pergunta importante".

Joseph Campbell

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

E a vida o que é, diga lá, meu irmão

Um céu sem arco-íris. Exposição Pinacoteca de SP.


Na ciência, bons experimentos começam com boas perguntas. Na vida, longas semanas começam com péssimas perguntas, do tipo qual é o sentido para isso tudo. Todas as ciências deveriam reconhecer os avanços proporcionados pelas reflexões de segundas-feiras.

A Teoria do Big Bang deve ter sido formulada numa segunda-feira, dia em que dá vontade de explodir tudo. Bem como a Teoria da Relatividade. Einstein percebeu como nesse dia o tempo passa tão devagar em relação ao final de semana. Freud deve ter descrito boa parte de suas teorias de repressão psicológica na segunda-feira.

De qualquer modo, questões filosóficas sempre me infernizaram, independente das segundas-feiras.  E a busca de respostas para o sentido de dias que se enfileiram tem se tornado cansativa. 

‎"Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos",  simplificou Joseph Campbell, estudioso de mitologia norte-americano.

Talvez seja a vida um arco-íris. Um equilíbrio delicado de circunstâncias. Ninguém questiona a finalidade. É apenas inevitável maravilhar-se com o resultado. Uma ilusão de óptica dependente da posição do observador, impossível localizar onde começa ou termina.

Convido minha alma a abafar a curiosidade e apenas deleitar-se com as cores da paisagem.